AVISO: O conteúdo aqui postado, NÂO é fruto de imaginação. São fatos reais, romanceados, com o objetivo de tornar a leitura mais digerível. São permitidas sugestões, críticas, contestações e até mesmo xingamentos ao autor que além de escrever memórias alheias, também trará memórias próprias, mesmo que postumamente. Os contos serão postados diariamente e dirigidos aos que sabem ver o real significado dos fatos e não apenas pensar por cabeças alheias.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O IMPORTANTE E O COMUM
Se o nome de batismo fosse torná-lo pelo menos tão talentoso quanto seu xará, José Machado de Assis não passaria pela vida apenas observando fatos importantes e no dia seguinte sua memória já os esquecera. Talvez pela constante luta para a sobrevivência própria e de sua família, o Machado de Assim comum só pensava mesmo é na coleta que faria todo dia e em quanto os papelões, plásticos ou outros reciclados lhe renderiam.
Conseguira depois de algum tempo, traçar uma rota diária em que seu carrinho chegava ao final do dia abarrotado e dava-se por feliz pelo peso cada vez maior, tanto para empurrá-lo ladeira acima quanto freá-lo nas descidas. Assim sabia que poderia ganhar mais.
Em um desses dias, quando suas mãos calejadas clamavam dolorosamente por um descanso de alguns minutos pelo menos, e aproveitando o fato de que estava em um local de descida próximo ao clube freqüentado pelos mais ricos da cidade, José deu um tempo, encostando o carrinho próximo da calçada e aproveitou o tempo para comer algumas bolachas de um pacote que achara dentro de uma caixa de papelão, ainda com algumas sobrando.
Sua atenção foi despertada por uma discussão que acontecia entre um casal diante de um prédio de apartamentos luxuosos. Percebeu que o homem que gritava palavrões estava trajando roupas sociais, mas notadamente era o porteiro do edifício.
O homem a chamava de louca, e a mulher respondia que louco era ele que usava as próprias filhas como se fossem suas mulheres na cama.
José não acreditava que estava ouvindo aquilo, pois nada o faria crer que um pai pudesse ter coragem de praticar atos tão vis com suas próprias filhas. Chegou mesmo a acreditar que a mulher fosse mesmo louca, pois se não, teria denunciado o marido e ele não estaria solto nas ruas e também as meninas não estariam sendo submetidas à tamanha humilhação pelo próprio pai.
Machado de Assis, o escritor, não perderia a chance de colocar uma história como essa no papel e com certeza teria relevância perante a sociedade, mas o Machado de Assis que esquecia o que lhe traumatizava a cada noite de sono, nunca mais quis pensar sobre o assunto, porém procurou passar por outra rua por longo tempo, a fim de afastar-se daquele monstro travestido de educado porteiro.
Por vezes a frase: “eu só brinco com elas”, proferida em tom irônico e hipócrita pelo homem que discutia com a mulher aflorava à sua mente, mas rapidamente ele afastava os pensamentos e as lembranças.
Muito tempo depois, com o esquecimento total do que presenciara, José Machado de Assis, apelidado pelos amigos de “deixa que eu chuto”, voltou a coletar recicláveis na frente daquele edifício e por vezes, até cumprimentava o porteiro, que o olhava com desdém próprio dos que se sentem mais importantes que outros.
Assim, o próprio catador de papelão recolhia, não só o que pudesse ajudá-lo a sustentar a família, mas também se recolhia ao que julgava ser sua insignificância por sentir-se menos importante que aquele homem vestido de forma elegante e que partilhava de uma vida saudável junto aos moradores do elegante edifício.
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