sábado, 12 de março de 2011

Corre Escória

Não era a primeira vez que o chamavam de escória, ou mesmo de “viadinho saltitante”. Deitado na solidão de seu quarto, após ter entrado escondido em casa, Anderson escondia seu sofrimento, especialmente da mãe, pois assim como era antagonizado na escola pelos outros estudantes, achava que Sueli não fosse entender a diferença existente entre ele e os outros meninos da mesma faixa etária.
Tudo começou no dia em que toda a turma da escola foi levada para assistir um espetáculo teatral e Anderson identificou-se com aquela linguagem artística. Até então, tentara esportes, mas sua fragilidade o impediu de sair-se bem, e o professor de Educação Física o desestimulou. Depois da aula em que apenas assistiu, o professor chamou-o para uma conversa em particular e lhe disse que não precisava empenhar-se, já que não era o que realmente queria.
- O importante é você estar bem com você mesmo, Anderson! – acalmou-o o professor durante a conversa e finalizou dizendo que ele deveria procurar a pedagoga e procurar uma opção que fosse mais adequada à sua personalidade.
O xadrez foi à primeira opção e realmente deu-se bem nos torneios municipais e até mesmo regionais, mas quando viu os atores no palco, especialmente em performances que exigiam conhecimentos de dança e expressão corporal, sua mente como que fez aflorar uma paixão até então desconhecida.
Aquele mesmo grupo de teatro estava escolhendo atores em oficinas ministradas no Centro Cultural local e não se fez de rogado. Em pouco tempo, já fazia parte do elenco de iniciantes e dedicava-se ainda mais aos estudos, tanto na escola, fazendo com que professores o aplaudissem, quanto em livros indicados pelo Diretor do Grupo Teatral.
“Rato de Biblioteca”, “Nerd”, “florzinha do campo”, e outros apelidos semelhantes eram a tônica que os colegas de escola usavam diariamente quando passava por eles, e cada vez mais as agressões tornavam-se acintosas, até que finalmente atingiram o grau de violência física.
O ápice aconteceu naquela tarde, quando os outros colegiais fizeram uma espécie de corredor e quando ele passou, foi agredido por todos os lados, e só o deixaram quando jazia inerte no asfalto diante da Escola.
Ainda ouvia as gargalhadas de escárnio quando a porta do quarto abriu-se e Sueli entrou sorridente como sempre fazia ao receber o filho após a aula. Anderson ainda tentou esconder o rosto, mas sua mãe percebeu que algo não estava bem na forma de agir do filho, e aproximando-se, puxou-o de encontro a si e horrorizada viu as marcas que transfiguravam o rosto dele.
Tocou as marcas como se cada toque pudesse esclarecer a razão delas existirem, enquanto balbuciava palavras de pesar. Os carinhos tiveram o poder de fazer com que Anderson expressasse em palavras todo o ocorrido, como se o aliviasse do peso do mundo sobre si.
Mãe e filho sempre conversavam sobre muitos assuntos, porém o diálogo daquele momento foi o mais esclarecedor havido entre eles, e Anderson abriu-se como nunca o fizera e Sueli pode enfim conhecer o mais íntimo dele, ao mesmo tempo em que dissolvia todos os temores quanto ao julgamento que lhe dedicaria.
O amor incondicional que Sueli lhe dedicava naquele momento fez com que a dor física de Anderson ficasse em segundo plano. Estava sofrendo, mas sua alma estava em paz, pois sentia a acolhida mesmo expondo sua diferença.
Sueli inicialmente procurou cuidar da saúde do filho levando-o imediatamente à um hospital onde seus ferimentos foram devidamente tratados e em seguida, mesmo contestada por Anderson, procurou recorrer, tanto à Polícia quando à Escola procurando por Justiça, e em ambos, frustrou-se.
Os agressores eram menores de idade, e o máximo que lhes aconteceu, foi uma suspensão na Escola e uma refrega do delegado diante de seus pais, que os abraçava consoladoramente enquanto ouviam o sermão.
Agora Anderson não mais entra em casa escondido e o que o aguarda são dois braços amados de Sueli, que o recebem abertos e prontos para consolá-lo das injustiças e preconceitos contra o desconhecido. Cada vez mais sabe que outros braços o acolherão com amor, e que certamente o consolarão de diariamente ouvir aqueles pretensos machões agora o chamarem de “viadinho da mamãe”.

terça-feira, 8 de março de 2011

JADE É PEDRA... PRECIOSA?

Mesmo com apenas o braço direito funcionando como gostaria, após ter sido acometida de um AVC, Maria jamais deixava de escovar os cabelos de sua neta Jade antes de dormir. Era uma prática comum para as duas, conversarem sobre o dia enquanto os cabelos da pequena que estava entrando na adolescência, na flor de seus treze anos, eram escovados incessantemente pela avó que assumira sua criação.
- Porque meu nome é Jade, vó? – indagou repentinamente a pequena.
- Parece que sua mãe ouviu essa palavra quando estava grávida, e soube que era uma pedra preciosa, e assim, como sabia que você seria essa pedra linda e preciosa como tem se mostrado, deu esse nome a você! – respondeu orgulhosamente Maria.
Por pedra preciosa, Maria queria dizer que a neta demonstrava ser forte, mesmo tendo sido criada sem a mãe, e mais ainda, por ser boa estudante e ajudante em todas as tarefas da casa. Também tinha uma educação acima do normal para uma garota de sua idade e nunca havia demonstrado rebeldia.
- Você me dá uma pedra jade no meu aniversário segunda feira, vó? – perguntou a menina de forma ingênua e pura, pois ainda não conhecia o real valor do dinheiro para seus avós que viviam apenas com a aposentadoria minguada do avô.
 - Eu não sei se a gente vai poder filha! – quase gemeu Maria, pois sabia que o único presente que poderia dar à neta era mais uma boneca, que ela colecionava e as deixava em sua cama voltadas com o rosto para a porta, e antes de sair para a escola, jogava beijos em despedida e dizia-lhes para que a esperassem que logo voltasse. – Mas a boneca que queria, com os olhos verdes, pode ter o nome de Jade filha, e essa, nós vamos lhe dar!
- Jura vó? – empolgou-se a pequena, quase pulando e derrubando a escova de cabelos da mão da avó, que divertidamente ralhou com ela dizendo que parasse de bagunça que seus cabelos estavam todos emaranhados.
Na segunda, realmente durante a pequena reunião de amiguinhos entupindo-se com um bolo caseiro e salgadinhos, Jade apresentou a “Jade filha” à todos, com orgulho próprio de uma mãe e fez a inveja de muitas de suas amiguinhas que também gostavam de tais brinquedos.
Assim foi durante alguns dias, sempre colocando Jade filha na frente das outras bonecas em cima da cama e ao sair, dizia que elas não precisavam ficar tristes, pois logo a mamãe estaria de volta.
 Em uma quarta feira, ao entrar no quarto de Jade, Maria percebeu que as bonecas não estavam com a mesma arrumação e sim, deitadas como se com o rosto escondido. Deu-se conta também que naquele dia, Jade mostrava-se diferente, como se algo a estivesse incomodando, e só agora havia percebido.
Um arrepio percorreu o corpo de Maria que decidiu ir à escola esperar pela neta, pois algo não estava normal, nem naquele dia, e também na forma de Jade agir, e pedindo a Deus que a protegesse do que quer que pudesse estar acontecendo, saiu sem ao menos dar-se conta de ter deixado a porta do quarto e de casa abertas.
Cerca de meia quadra antes da Escola de Jade, Maria temeu o que estava vendo, pois uma viatura policial e uma de socorro médico ali estavam e uma multidão aglomerava-se na rua.
- Parece que uma menina levou um tiro! – ouviu uma mulher falando ao passar rapidamente por ela e atirar-se pelo portão sem que a pudessem segurar.
No dia seguinte, os jornais estamparam a noticia de que um garoto, ao mostrar uma arma que levava escondido para a escola, disparara acidentalmente e acertara a cabeça de uma coleguinha, matando-a instantaneamente.
Maria e Antenor não leram os jornais e também preferiram não ligar televisão ou rádio e apenas sentavam no quarto da neta, a avó com a escova de cabelos nas mãos e o avô embalando a Jade filha.
Todas as outras bonecas não olhavam para a porta, pois sabiam que sua amiguinha não mais retornaria, mas estava dessa vez deitadas com os olhos voltados para o céu, como a verem só o que elas poderiam ver.
- A pedra preciosa, a pedra, preciosa! – balbuciou Maria como se estivesse vendo um brilho verde a entrar pela janela no entardecer de mais um dia.