Não era a primeira vez que o chamavam de escória, ou mesmo de “viadinho saltitante”. Deitado na solidão de seu quarto, após ter entrado escondido em casa, Anderson escondia seu sofrimento, especialmente da mãe, pois assim como era antagonizado na escola pelos outros estudantes, achava que Sueli não fosse entender a diferença existente entre ele e os outros meninos da mesma faixa etária.
Tudo começou no dia em que toda a turma da escola foi levada para assistir um espetáculo teatral e Anderson identificou-se com aquela linguagem artística. Até então, tentara esportes, mas sua fragilidade o impediu de sair-se bem, e o professor de Educação Física o desestimulou. Depois da aula em que apenas assistiu, o professor chamou-o para uma conversa em particular e lhe disse que não precisava empenhar-se, já que não era o que realmente queria.
- O importante é você estar bem com você mesmo, Anderson! – acalmou-o o professor durante a conversa e finalizou dizendo que ele deveria procurar a pedagoga e procurar uma opção que fosse mais adequada à sua personalidade.
O xadrez foi à primeira opção e realmente deu-se bem nos torneios municipais e até mesmo regionais, mas quando viu os atores no palco, especialmente em performances que exigiam conhecimentos de dança e expressão corporal, sua mente como que fez aflorar uma paixão até então desconhecida.
Aquele mesmo grupo de teatro estava escolhendo atores em oficinas ministradas no Centro Cultural local e não se fez de rogado. Em pouco tempo, já fazia parte do elenco de iniciantes e dedicava-se ainda mais aos estudos, tanto na escola, fazendo com que professores o aplaudissem, quanto em livros indicados pelo Diretor do Grupo Teatral.
“Rato de Biblioteca”, “Nerd”, “florzinha do campo”, e outros apelidos semelhantes eram a tônica que os colegas de escola usavam diariamente quando passava por eles, e cada vez mais as agressões tornavam-se acintosas, até que finalmente atingiram o grau de violência física.
O ápice aconteceu naquela tarde, quando os outros colegiais fizeram uma espécie de corredor e quando ele passou, foi agredido por todos os lados, e só o deixaram quando jazia inerte no asfalto diante da Escola.
Ainda ouvia as gargalhadas de escárnio quando a porta do quarto abriu-se e Sueli entrou sorridente como sempre fazia ao receber o filho após a aula. Anderson ainda tentou esconder o rosto, mas sua mãe percebeu que algo não estava bem na forma de agir do filho, e aproximando-se, puxou-o de encontro a si e horrorizada viu as marcas que transfiguravam o rosto dele.
Tocou as marcas como se cada toque pudesse esclarecer a razão delas existirem, enquanto balbuciava palavras de pesar. Os carinhos tiveram o poder de fazer com que Anderson expressasse em palavras todo o ocorrido, como se o aliviasse do peso do mundo sobre si.
Mãe e filho sempre conversavam sobre muitos assuntos, porém o diálogo daquele momento foi o mais esclarecedor havido entre eles, e Anderson abriu-se como nunca o fizera e Sueli pode enfim conhecer o mais íntimo dele, ao mesmo tempo em que dissolvia todos os temores quanto ao julgamento que lhe dedicaria.
O amor incondicional que Sueli lhe dedicava naquele momento fez com que a dor física de Anderson ficasse em segundo plano. Estava sofrendo, mas sua alma estava em paz, pois sentia a acolhida mesmo expondo sua diferença.
Sueli inicialmente procurou cuidar da saúde do filho levando-o imediatamente à um hospital onde seus ferimentos foram devidamente tratados e em seguida, mesmo contestada por Anderson, procurou recorrer, tanto à Polícia quando à Escola procurando por Justiça, e em ambos, frustrou-se.
Os agressores eram menores de idade, e o máximo que lhes aconteceu, foi uma suspensão na Escola e uma refrega do delegado diante de seus pais, que os abraçava consoladoramente enquanto ouviam o sermão.
Agora Anderson não mais entra em casa escondido e o que o aguarda são dois braços amados de Sueli, que o recebem abertos e prontos para consolá-lo das injustiças e preconceitos contra o desconhecido. Cada vez mais sabe que outros braços o acolherão com amor, e que certamente o consolarão de diariamente ouvir aqueles pretensos machões agora o chamarem de “viadinho da mamãe”.

