sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo quatorze... “Memória curta... memória longa...”

Patrícia apenas recordou dos momentos vividos com o empresário em questão ao vê-lo novamente passar por ela no local onde costumava aguardar os clientes. Um outro carro ainda mais luxuoso, na cor amarela e que tinha linhas esportivas. Não saberia dizer a marca ou mesmo se era de indústria brasileira ou importado, mas pegou-se imaginando passear naquela máquina, mesmo que para isso não cobrasse pelo programa.
Sete anos haviam se passado, mas em sua memória, o semblante daquele homem estava indelevelmente impregnado, como que uma gravura, pois nos cinco encontros que tivera com ele praticara todas as artes da satisfação masculina em sua plenitude, ensinadas teoricamente por Ivone, jamais o esquecera, mas não de forma positiva e sim, como de um instrumento de tortura.
Teve febre, náuseas e desarranjos intestinais por três dias consecutivos após o segundo encontro em que foi manipulada e penetrada por aquele homem que a fixava com olhar bestial e dominador, enquanto a ouvia gemer. Comparou aquele rosto com o de uma gravura de vampiro em um livro que sua amiga Mari folheava de vez em quando na sala e logo após o abandonava sobre o sofá.
Ele era o vampiro de Patrícia, pois sugou até mesmo sua alma, a qual jamais deixou de ser atormentada nas noites seqüentes a todos os encontros.
Ao vê-lo naquele dia, Patrícia até mesmo desejou ser novamente procurada por ele, por simples ingenuidade, pois aquele homem jamais se permitia exposição e mais ainda, usar mulheres como ela, que já não mais eram jovens, puras e virgens.
Ansiava por um programa, pois sabia que teria que pagar o hotel e o jantar daquele dia e não podia dar-se ao luxo de escolher clientes. Lembrou-se que no livro que lia enquanto estava na cadeia e que agora era seu companheiro no pequeno quartinho nos fundos do hotel simplório que vivia, havia uma prostituta que dizia preferir carros com cadeirinhas de criança no banco traseiro, pois seriam homens de família que apenas queriam uma aventura extraconjugal com discrição e rapidez. E também não regateavam o preço.
Mentalmente desejou que um desses passasse por ela, virasse a esquina e estacionasse em um local onde não seria visto pelos motoristas dos outros carros que trafegavam por aquela avenida, pois assim, tanto seu jantar quanto a diária do hotel estariam garantidos.
Um carro fez menção de estacionar perto dela e ao observar o motorista, Patrícia foi surpreendida, pois ouviu a frase conhecida do seu amigo escritor.
- Se prometer que não vai se aproveitar de um pobre indefeso, virgem e puro, eu deixo você entrar? – seguido de uma agradável gargalhada.
- Eu não prometo nada! – exclamou Patrícia acompanhando a brincadeira do homem que se tornou seu amigo no lugar menos improvável possível e já entrando no carro sem mesmo esperar convite.
- Que está fazendo aqui menina linda? – perguntou ele, como que ingenuamente.
- Estava esperando meu namorado que acabou de chegar! – respondeu ela.
- Ih... Então é melhor eu ir embora que não quero apanhar! – defendeu-se ele.
- Meu namorado é você seu bobo! – exclamou ela enquanto se aproximava e o beijava no rosto.
- E ninguém me avisa, pô! – brincou.
- É só dizer o que vai querer que eu estou pronta meu amor! – riu Patrícia.
- A única coisa que quero agora, é banho, janta e cama... Sozinho!
- Ainda com essa frescura de achar que se eu transar com você, estou fazendo sacrifício? – perguntou Patrícia que pela primeira vez na vida havia encontrado um homem que conversava com ela, a ouvia, e que não a queria como mulher.
- Eu vim aqui prá te dizer que acho que consegui aquela informação que me pediu! – falou ele como se não tivesse ouvido a frase dela – E também pra te convidar prá jantar, se quiser! Depois de deixo onde quiser!
- Eu quero jantar, mas depois tenho que voltar, pois preciso arrumar dinheiro prá pagar o quarto hoje! – exclamou Patrícia mesclando alegria por conseguir uma informação que a poderia tirar daquela vida e tristeza por saber que naquele momento, sua realidade ainda exigia que continuasse a ser o que era.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Capítulo treze... “O momento da verdade!”


No momento em que estava sendo abraçada por aquele homem inicialmente elegante que a levara a um apartamento luxuoso a bordo de um carro grande e preto, cujo modelo nunca havia visto, a não ser em filmes, Patrícia começou a tomar ciência do que era realmente ser prostituta.
Preparada teoricamente para o que lhe aconteceria, Patrícia não estava, contudo pronta psicológica e fisiologicamente para o que se seguiria, pois nem sua primeira menstruação ainda tivera.
Sua mente era um turbilhão de emoções desencontradas ao sentir-se afagada por mãos desconhecidas, que mesmo bem tratadas com esmero por manicures, lhe causavam asco.
- “Ele gosta que as meninas mostrem que estão gostando do que estão recebendo e também que aceitem fazer o que ele quer!” – parecia-lhe ouvir a voz de Ivone – “E se souber agir de acordo, ganhará presentes na despedida!”.
Tais recordações das palavras de Ivone foram substituídas por outras proferidas pelo homem que sabia ser milionário e que não se importava de pagar altos preços por jovens como ela, após desnudá-la e afastar-se para ter uma melhor visão de seu corpo.
- “Parece que você vale o quanto recebe menina!” – ouviu Patrícia aquela voz que jamais esqueceria, pois tinha um tom sibilante como se imagina tenha uma cobra. – “É digna de ser tratada com muita paciência, e vou te dizer, hoje a gente só vai ficar nas preliminares!”
Por preliminares, Patrícia soube que apenas seu sexo não seria invadido, mas durante a imersão de ambos em uma banheira, nem um só centímetro de seu corpo deixou de ser manipulado intensamente e pela primeira vez, sentiu o gosto acre do hormônio masculino.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, ouviu mentalmente Patrícia, porém dessa vez, parecia que a frase perdia o sentido como quando entoada por sua mãe no passado, sendo substituído por uma incrível necessidade de que aquele momento deixasse de existir, tanto no presente, quando no futuro.
Não sabia, no entanto, que seus momentos seriam nada mais nada menos que uma repetição por muito tempo em sua vida.
Procurou bloquear aquelas sensações negativas que teimavam a açoitar seu corpo e mente durante todas as noites seguintes, mas, talvez por ingenuidade ou mesmo falta de alternativas, não podia fugir do pesadelo em vida que o cotidiano lhe apresentaria.
Haveria um segundo encontro, talvez um terceiro e não sabia quantos mais. A única coisa que sabia é que não poderia decepcionar Ivone, já que a sua segurança dentro daquela casa dependia de tornar-se uma cortesã como as outras três amigas que, mesmo a tratando sempre com ironia, a olhavam como se a uma pobre indefesa ou futura solitária.
Claro que aos doze anos de idade Patrícia não sabia disso e só soube tempos depois, ao perceber que tanto a insegurança quanto a solidão lhe seriam companheiras constantes, mesmo que dentro de um quarto quanto em uma multidão.
Afastava os sentimentos negativos e procurava prestar atenção nas palavras de Ivone ilustrando-a na melhor forma de agir no segundo encontro com o tal empresário, e contraditoriamente ansiava e assustava-se com o momento, sentindo-se como se na iminência de se afogar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Capítulo doze... “As terríveis memórias podem ser eternizadas”


Os dias que Patrícia passava nas ruas, por incrível que possa parecer para quem não conhece a realidade de quem não tem horizonte, era um emaranhado de sensações e sentimentos e o tempo todo, os dias de Cadeia afloravam-lhe à mente.
Lembrava-se especialmente de ter conhecido um presidiários que prestava serviços na Secretaria da Carceragem, o qual mostrava um bom humor acima do normal, mesmo naquela situação constrangedora. Toda manhã ele descia o corredor que levava até o quadrante que separava a ala masculina da feminina anunciando sua presença com piadas sobre sua beleza varonil, dizendo que sabia ser impossível a todas não se apaixonar por ele. E isso porque nada tinha de beleza, mas sim, uma simpatia a toda prova, tanto que até os homens recolhidos à prisão divertiam-se com as piadas dirigidas às mulheres.
Conversara todos os dias com ele, especialmente após o horário de expediente, quando o homem sentava-se em um sofá improvisado colocado perto da grade das celas femininas e era rodeado por todas as presidiárias que ouviam e dissertar sobre seus processos e explicava os pormenores dos casos jurídicos que as levaram até aquele lugar.
Patrícia sentia grande aproximação por ele, pois até então fora o único homem que não demonstrara querer seus préstimos sexuais. Sua confiança naquele homem foi crescendo e um dia, ao mostrar-lhe o livro que era seu companheiro constante, cuja história a fascinava por ter semelhança com sua própria vida, soube que ele também escrevia e pediu-lhe que então fizesse um livro com suas histórias.
Assim Patrícia começou a contar os detalhes de sua vida e soube que caso ele escrevesse um romance com tais histórias, seria na realidade uma biografia sua ou então um livro de memórias.
Começou contando a respeito da morte de sua mãe e da lembrança da musica que ela vivia cantando e ao entoar a frase: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, ele continuou a letra que não conhecia e que dizia: “Onde eu possa encontrar a natureza, alegria e felicidade com certeza...”
Patrícia perguntou-lhe se seria possível lhe conseguir o cd da musica e soube que era cantada pelo rei da musica brasileira, Roberto Carlos. No dia seguinte, pode ouvir todo o cd que ganhou de presente do seu amigo e escritor, que lhe disse que iria presenteá-la, mas só se ela permitisse que ele divulgasse suas memórias, até mesmo para alertar jovens quanto ao envolvimento com drogas e prostituição, e não se fez de rogada, cada vez mais abrindo suas memórias, procurando dar vazão aos sentimentos e mágoas há tanto adormecidas.
As histórias de Patrícia seriam escritas e com certeza muitos dos envolvidos nelas poderiam dar-se conta de que não usaram apenas um corpo, mas que dentro daquele corpo também havia um ser que jamais deixaria de entoar: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Capítulo onze... "Porta para a liberdade?"

Só tomou consciência de sua verdadeira condição, no sábado seguinte, ao procurar por Marcos e ser totalmente ignorada. Viu-se diante de mais uma decepção em sua vida já plena de frustrações.
As lembranças do passado assombravam apenas o inconsciente de Patrícia, pois a realidade que se apresentava era tão ou mais assustadora, pois a liberdade recém conseguida não lhe parecia em nada com o que sonhara enquanto presa.
Naquele momento, a única realidade que sentia era o liquido viscoso em sua garganta, que, ao mesmo em que tempo que a enojava, mostrava-lhe o final da situação presente, em que a sobrevida exigia fosse aceita passivamente. Ao sair da cadeia, foi indagada de o porquê não encontrar um trabalho alternativo naquela ou em outra cidade e não mais fazer “ponto” na avenida disputando os melhores lugares com outras em igual situação.
- Porque na minha situação, qualquer pessoa fecharia a porta na minha cara! – rebateu mais que respondeu Patrícia diante da pergunta a si dirigida e emendou – Eu só poderia trabalhar de doméstica ou diarista! E quem daria emprego para uma moça que acaba de sair da cadeia depois de ter sido condenada por tráfico de drogas?
Quem lhe dirigiu a pergunta foi um dos agentes de carceragem, que diante da resposta amargurada, baixou os olhos como que a procurar alguma alternativa e em seguida espalmou as mãos demonstrando total falta de alternativas.
- Se souber de alguém que me acolha em sua casa, mesmo que também me use como prostituta particular, eu até agradeceria! – ironizou Patrícia e continuou em tom mais resignado – Hoje, por exemplo, se não conseguir um programa, não tenho onde possa dormir ou comer!
A realidade abateu-se sobre todos os que presenciavam Patrícia assinar o seu Alvará de Soltura, documento que a restituía à liberdade, e fizeram uma “vaquinha” a fim de dar-lhe algum dinheiro suficiente para pelo menos aquela noite, sabendo, no entanto, que o dia seguinte não reservava alternativa a ela.
Subindo a rampa que a levava até a rua e apenas com uma mochila contendo algumas poucas peças de roupas, um sabonete, pente e creme dental, além de um livro que tivera como companhia constante nos dois anos e dois meses que passara na cadeia e que agora também servia como cofre do seu documento de soltura cuidadosamente dobrado entre suas páginas, Patrícia parou sem saber qual rumo tomaria. Tanto fazia dirigir-se para a direita ou esquerda, pois seu horizonte jamais abrangeria mais que alguns poucos metros.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – entoou quase sem perceber que o fazia enquanto seguia pela rua que a levaria para o centro da cidade.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Capítulo dez... "Do paraíso ao inferno!"

Em uma das vezes em que fazia a coleta de um pacote para levar a outro endereço, Patrícia foi surpreendida com duas viaturas da Policia que rapidamente a cercararam. Flagrada com algumas pedras de crack, foi levada para a Delegacia e sabia que muito tempo se passaria até que pudesse novamente andar com liberdade pelas ruas da cidade. A única coisa que a consolava, era saber que naquele presídio onde homens e mulheres eram reclusos, todos os dias poderia ver Marcos de uma distancia de cerca de cinco metros por entre as grades e ainda privar com ele aos sábados, dia em que as galerias eram abertas e podiam circular por ambas.
Inicialmente foi recebida com cordialidade pelas outras detentas, mas a realidade lhe caiu como um raio na mesma noite, ao perceber que mal teria onde encostar-se para dormir. Espremida junto a outras quarenta e quatro prisioneiras em dois cubículos planejados para abrigar oito, Patrícia deu-se ainda que apenas contava com a roupa do corpo, sem material de higiene ou mesmo substitutas para as que usava. Não tinha colchão, travesseiro ou mesmo cobertas, encostada em uma parede de concreto frio.
Lágrimas afloraram quando também percebeu que Marcos não lhe dava a atenção que imaginava ser merecedora. Não queria culpá-lo por estar naquele lugar, pois sabia que o que fazia não era legal, mas inconsciente o fazia, especialmente depois de ter a certeza que ele lhe abandonaria.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – novamente aflorava à sua mente quando olhava para as paredes apinhadas de roupas precariamente dependuradas, como que a consolar. Seu mundo deixou de interessar a quem quer que fosse, pois naquele lugar, todos estão muito concentrados em si mesmos para interessar-se por outros que não seu próprio futuro. Suas companheiras de infortúnio falavam sem parar do que lhes havia acontecido e ela aprendeu a falar do seu também, apenas para extravasar a sensação de aperto no peito.
Procurava por horas visualizar a galeria masculina na tentativa de pelo menos receber um olhar de Marcos, mas este nem se dava ao trabalho de aparecer em algum lugar visível a ela. Algumas roupas lhe foram cedidas por companheiras, bem como material de higiene e aprendeu que ali dentro, todos tinham que ter certa solidariedade uma para com a outra. Aprendeu também que em uma cadeia havia leis próprias e que para sua sobrevivência, deveria adaptar-se a elas. Se bem que para adaptação a qualquer situação, ela não tinha nenhuma dificuldade, mesmo que isso significasse a morte de seu próprio eu.

Capitulo nove... "Aos cães !"

Não sabia se ficava frustrada, decepcionada ou brava por estar ouvindo isso do homem a quem dedicava tanto amor, mas ao mesmo tempo resignava-se, pois não estaria fazendo ali dentro, diferente do que fazia lá fora. Baixou a cabeça e mordeu os lábios, aquiescendo com o pedido e naquele sábado foi visitada por outros três detentos desconhecidos, que apenas a usavam e saiam, sem ao menos pronunciar uma só palavra.
Um mês de passou desde esse dia e novamente Marcos mostrou-se ainda mais nervoso. Disse-lhe que precisava ainda que ela fizesse outras coisas para os detentos, além do que já estava fazendo, pois o ameaçavam o tempo todo e ele estava com medo de ser morto. Explicou a ela que eles precisavam de alguém que lhes fizessem algum “adianto” nas ruas e ela poderia ajudá-los.
Ficou sabendo que o que queriam era alguém para fazer alguns serviços de coleta e entrega e que ela seria paga prá isso. Apenas teria que ir a determinado endereço buscar alguns pacotes e levá-los a outro lugar que lhe seria indicado. E que a cada serviço, lhe pagariam o transporte e mais algum dinheiro e que seria suficiente para que ela não mais fizesse ponto na Avenida, como estava fazendo até aquele dia.
O pedido também mostrou a Patrícia que o que fazia para conseguir dinheiro, não era segredo para Marcos. Assim, aceitou a incumbência durante um tempo e realmente não precisava mais entregar-se a homens desconhecidos, pois o que ganhava era o mais que o dobro do que ganhava nas ruas. Até conseguiu comprar um bolo confeitado para comemorar seu aniversário de dezoito anos e presenteou a si mesmo com algumas roupas um pouco melhores dos que usava até então. Foi a primeira vez que conseguira fazer tal coisa, pois o que ganhava nos meses anteriores, gastava com Marcos, satisfazendo-se com a expressão de alegria dele.
Marcos fora condenado e a maior de suas preocupações era a possibilidade de ser transferido para o Sistema Penitenciário, uma vez que outros que já haviam cumprido pena naqueles locais, falavam dos horrores que os esperavam, mas quanto a isso, nem Patrícia ou ele poderiam fazer nada. Procuravam viver os momentos cada vez mais escassos aos sábados, pois ela também tinha que cumprir a missão para com os outros detentos.

Capítulo oito... "A porta do inferno!"

Finalmente pode fazer companhia a parentes e esposas dos prisioneiros na fila formada em frente da Cadeia Pública local, tendo às mãos os documentos que lhe permitiam visitá-lo e uma sacola com salgadinhos e refrigerante, que sabia ele gostava. Algumas peças de roupa e bilhetes amorosos havia conseguido enviar durante as semanas que se passaram até aquele sábado frio. Sabia que a presença de Marcos aqueceria, não só seu corpo, mas também seu coração, não importando onde ele estivesse.
A revista corporal obrigatória aos visitantes dos detentos surpreendeu Patrícia, pois ela desconhecia o mundo do crime e não tinha a menor noção de que muitos tentam levar objetos e materiais proibidos para o interior da prisão. Apesar de viver entre os dois mundos, nunca se importou com quem tinha como cliente e mais surpresa ainda ficou, ao encontrar clientes reclusos junto a Marcos. Do mundo empresarial e de encontros na rua com clientes passeando com a família, Patrícia já estava acostumada e ignorava-os, pois sabia que poderia lhes causar dissabores ao demonstrar conhecê-la.
Marcos a aguardava ansioso diante de uma porta de grades, e o que viu em seus olhos fez com que todo o esforço e sacrifício feito por ela, para estar junto dele, valesse a pena. Era a expressão do amor em toda sua plenitude e deu-se sorrindo e chorando ao mesmo tempo enquanto aninhava-se em seus braços e sentia o sabor de seus lábios.
Jamais conseguiria descrever as horas passadas junto a Marcos, já que era um turbilhão de emoções desencontradas. Riam e choravam, conversavam e se amavam, mergulhavam em si mesmos ao mesmo tempo em que compartilhavam com outros detentos e parentes as agruras e sacrifícios. Ele não perguntava, talvez por medo de ouvir a resposta que sabia em seu inconsciente que iria ouvir e ela não lhe dizia onde conseguia o dinheiro para enviar-lhe diariamente salgadinhos, refrigerantes e materiais de higiene. Ele percebia que algumas vezes ela baixava os olhos quando alguns rapazes passavam diante deles e ela também sentiu seu amado ansioso e tenso em diversas ocasiões. Preferiam ignorar o que lhes pudesse causar situações negativas nas poucas horas semanais que passavam juntos aos sábados.
Até que em um desses dias em que apenas permitiam o amor, Marcos mostrou-se ainda mais tenso e nervoso e disse-lhe que precisava que ela o ajudasse, sob pena de sofrer os horrores nas mãos dos outros presos. A realidade de sua vida de garota de programa caiu-lhe em cima e Marcos disse que estava sendo ameaçado por alguns detentos que não tinham visita e que estavam precisando de mulher e que ela poderia fazer-lhes companhia por alguns minutos enquanto ele passeava pelo pátio.

Capítulo sete... "De um mundo a outro!"

Gradativamente foi perdendo-os e Ivone percebeu que algo não estava bem, e ao dar vazão a carência do ser amado, fugia para encontrá-lo às escondidas. Em um desses dias, foi seguida por Ivone, que ao descobrir o motivo de sua criatura deixar de ser lucrativa, não se fez de rogada.
Patrícia novamente viu-se na rua, apenas com suas roupas do dia a dia, pois até mesmo as que usava nas noites de cortesã lhe foram tiradas. Restava-lhe Marcos. Assim, cabisbaixa, deixou-se caminhar devagar até a casa dele, alimentando a esperança de ser acolhida.
Acolhida e amada. Para quem nunca havia sentido carinho que não fosse oriunda da figura materna, a vida com Marcos foi como se Patrícia tivesse saído do inferno em entrasse no paraíso. Aos dezesseis anos de idade, novamente começou a acreditar que pudesse existir um futuro e até mesmo a música que continuava a ecoar em seus ouvidos na voz da mãe, tinha outro significado e diariamente pegava-se entoando a frase: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”
Paz que foi quebrada na nova vida quando recebeu a noticia da prisão de Marcos, envolvido com um grupo de assaltantes após pouco mais de um ano de vida em comum. Perdeu o chão e mais ainda, a esperança de ter encontrado um lugar bonito prá viver. Foi lhe dito que apenas poderia visitar Marcos na prisão com a autorização do juiz por ainda não ter completado dezoito anos. Também não possuía documento de identidade, mas lembrava-se da Certidão de Nascimento guardada em sua bolsa, fiel companheira de quando fora jogada nas ruas nas duas casas que conhecera.
Duas semanas foram necessárias para conseguir os documentos para ver-se frente a frente com o único homem a quem amara. Duas semanas que a levou de volta a vida antiga, permitindo-se ser usada em troca de dinheiro, já que não tinha nem mesmo para a passagem de ônibus urbano e comida.

Capítulo seis... "A Vampira !"

- “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – entoava diariamente e algumas vezes Mari a acompanhava na musica, sem saber o significado para a amiga.
 Dos doze aos dezesseis anos, Patrícia saía de casa apenas para compras no mercado ou em alguma das lojas do próprio bairro onde morava e seu horizonte era tão restrito quanto o que sabia da vida. Vivia de forma a permitir que seu corpo fosse usado e em contrapartida, tinha casa e comida garantida. Não mais voltou a escola e seu aprendizado estava apenas em procurar a melhor forma de tratar quem pagasse para tê-la por alguns minutos. Quando penetrada, deveria mostrar satisfação. Quando usando a boca para satisfazer o companheiro, deveria permitir ser manipulada com obediência total e quando sentisse o ápice do gozo masculino, deveria portar-se como se provasse o melhor dos quitutes. Assim portava-se Patrícia e sempre tinha um bom numero de clientes que a procuravam, fazendo com que Ivone a valorizasse e até mesmo dissesse ter sido muito bom a sua permanência naquela casa.
Situação que mudou completamente quando na vida da adolescente entrou Marcos, um rapaz que conseguiu fazer com que soubesse o porquê não devia sentir saudades ou carência de carinhos masculinos. O permitir-se ser manipulada por homens desconhecidos, até então natural para Patrícia, passou a ser quase um sacrifício dos quais fugia, pois a cada vez a imagem de Marcos parecia tomar forma à sua frente. Tanto que começou a sentir repulsas dos carinhos que recebia dos clientes.

Capítulo cinco... "O sangue ao primeiro vampiro..."

Abraçando Patrícia e a conduzindo para o interior da casa que era dotada de diversos quartos, Ivone disse que ela não precisava se preocupar com aquelas cobras, e que poderia ficar a vontade no quarto da Tânia. Era um quarto com duas camas de solteiro e lhe foi dito que durante a noite, elas estavam proibidas de sair e que não ligassem para os barulhos que pudessem ouvir, pois a casa era freqüentada por muitos amigos das moças e não seria bom que as vissem. Por isso, havia um aparelho de televisão ligado no quarto, sempre com um som bem alto.
Patrícia e Tânia se tornaram boas amigas, já que ambas tinham a mesma idade, porém a filha da dona da casa era mais livre para ir e vir. Tanto Ivone quanto as outras moças, que soube chamarem-se Mari, Diana e Cleuza, a ensinaram alguns truques de maquiagem e ainda divertiam-se com ela, fazendo com que desfilasse pela sala, parcamente vestida e devidamente produzida como uma delas. Foi devidamente ilustrada no que elas eram, e não se chocou, uma vez que não tinha padrão de comparação de comportamentos e aprendeu que o comércio do sexo era algo natural e responsável pelo sustento da casa.
Durante pouco mais de um ano, aprendeu truques, palavras e poses com as mulheres da casa e aos 12 anos já sabia a teoria da profissão. Ivone a informou que ela iria estrear com um empresário que não freqüentava a casa, mas que era cliente em potencial, já que sua motivação era sempre para jovens como ela.
Patrícia não via nada de anormal na forma de agir e novamente foi ilustrada por Ivone, de como deveria proceder diante do seu iniciador. Patrícia ficou sabendo posteriormente, que o empresário pagou cinco mil dólares por sua estréia, e ainda teve outros quatro encontros com ela, sempre em ambientes luxuosos. Depois do quinto encontro, Ivone a informou que o empresário não mais a queria. Pegou-se pensando em sua estréia após tal informação, pois procurava encontrar onde errara.
Aprendeu que por mais que se esforçasse em agir como os outros queriam, não era suficiente para ser aceita. Foi assim com o padrasto, e agora com o homem que a iniciara na profissão que Ivone denominava de cortesã. Descobriu que não poderia sentir saudades, nem mesmo carências, pois esses sentimentos eram seus inimigos.

Capítulo quatro... "Nova flor"

“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz.” – entoou sem perceber que o que pronunciava, era apenas sua esperança para o futuro, que se apresentou na forma de uma de suas amigas de sala, uma garotinha de sua idade e que morava a uma quadra de sua casa, de nome Tânia.
- Matou aula hoje Pat? – ouviu a amiga.
- A mãe morreu! – exclamou como se não fosse ela a produzir som, pois a frase saiu sem entonação ou emoção alguma, algo que em seu íntimo fervilhava.
- Nossa! – surpreendeu-se Tânia – E o que você está fazendo aqui?
- O Edu me mandou embora! – novamente sem entonação ou emoção – Falou que eu só vou atrapalhar a vida dele!
- Ele sempre foi um porco mesmo! – ouviu a amiga falar com raiva de seu padrasto – Vem comigo! A mãe não gosta do Edu e você pode ficar lá em casa!
- Sua mãe não vai ficar brava? – falou Patrícia já com uma réstia de esperança.
- Eu acho que não! Ela não gosta do Edu e sempre falou bem de você! Sempre disse que uma garota como você é um achado! – respondeu animadamente Tânia.
Patrícia e Tânia andaram as quatro quadras até a casa conversando sobre o ocorrido e ao chegarem, a amiga de Patrícia pediu para que ela esperasse enquanto conversava com sua mãe. Os olhos de Patrícia ficaram grudados na porta da casa por onde entrou sua amiga, esperançosos de que por ela pudesse passar e ser acolhida. Não demorou em que a porta fosse aberta e Ivone aparecesse com um sorriso de boas vindas e acolhesse a pequena Patrícia, abraçando-a e conduzindo por uma sala bem decorada, com cortinas vermelhas e móveis em tom quentes.
Três outras moças atarefadas em pintar as próprias unhas ou cuidar dos cabelos também lhe deram boas vindas, mas de uma forma estranha, com frases como “Carne nova no pedaço”, ou então “Ninfeta na área, grana na mão!”, e que receberam como resposta um olhar raivoso por parte de Ivone, que dizia que a nova moradora da casa não iria ser desclassificada como elas, mas sim, seria preparada apenas para os bacanas.
- Até que os bacanas não queiram mais carne usada, né Ivone? – debochou uma loira oxigenada de nome Mari.

Capítulo três... "Horizonte ?"

Não se lembrava de ter acompanhado o funeral até o cemitério ou mesmo de ter voltado a casa onde moravam com um homem que se tornou seu padrasto, talvez porque o acontecimento seqüente a faz esquecer tudo o mais. Não perdeu só a mãe, mas foi sumariamente expulsa pelo padrasto que nunca a tratara como alguém que precise de carinho e atenção. Suas poucas roupas surradas dentro de uma maleta foram colocadas em suas pequenas mãos e uma risada nojenta indicava-lhe que procurasse onde viver, pois daquele dia em diante, ela seria apenas um estorvo para ele. O real significado daquilo, Patrícia não entendeu, mas sabia que o mundo a assustava. Abraçada à maleta, deixou-se andar a esmo e sentou-se embaixo de uma árvore na esquina da escola onde estudava o ensino fundamental. Ouvia os burburinhos oriundos de trás dos muros da escola, e sabia que eram os amigos, pois era dia de aula e ela não fora por causa da morte da mãe, como se de outro mundo. E era mesmo outro mundo, pois daquele momento em diante, tudo o que conhecera deixava de existir para serem abertas novas possibilidades. Ela não via naquele momento, nenhuma possibilidade ou alternativa.

Capítulo dois... "Cinzas ainda"

Se lhe fosse dado o dom da palavra ou mesmo da escrita, suas memórias renderiam um livro cheio de histórias grotescas sem início ou fim. Saudades só mesmo da mãe, a única em que suas memórias não lhe havia causado frustração. Lembrava-se dela, de sua paciência, de seus afagos e especialmente das lágrimas que vertiam cada vez que a embalava a noite quando febril. Ao pensar na mãe, Patrícia ouvia a voz entoar “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, mesmo sem ter a menor idéia do significado de tais palavras, e assim se permitia embalar. Embalo totalmente diferente do que estava tendo naquele momento em que apenas pensava em receber logo um esguicho hormonal e saber que poderia voltar a olhar o mundo à sua volta.
A garotinha Patrícia que se tornou mulher sem saber ao menos o significado daquilo, estava sendo usada novamente apenas como um depósito da libido masculina, como de resto foi toda sua vida. Nunca se perguntou por que havia chegado aquele ponto da vida, mas suas memórias, caso pudessem ser descritas, teriam inicio na morte de sua mãe, quando ainda com 11 anos de idade. Viu-se olhando para a mãe dentro do caixão, sem saber que daquele dia em diante a frase que era uma afirmação e que muito fora entoada por ela, passaria a ser sua companheira constante, mas de forma interrogativa. Haveria um além do horizonte?

Capitulo um... "Cinzas e mais cinzas"

“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”

A música cuja frase repetia-se em sua mente como se na voz de sua mãe, era uma constante na cabeça de Patrícia, talvez porque ela nunca tenha se atentado para o fato de que seu horizonte sempre foi tão restrito, que seus pensamentos procuravam formas de soltar-se das amarras da realidade. Aos 20 anos, a vida da jovem seria o suficiente para render um romance completo, tal a quantidade de momentos cheios de emoções variadas.
Não que seus pensamentos abordassem tais coisas, uma vez que aprendera a conviver apenas com os momentos sem ater-se muito ao passado ou mesmo planejar o futuro. No momento presente, por exemplo, seu horizonte visual era apenas de um ventre masculino enquanto seus pensamentos alegravam-se com a possibilidade de não ter preocupação com duas refeições. Também não se atinha se o ventre à sua frente tinha nome, endereço, belo par de olhos ou mesmo carinho para com ela, mas sim, que após o que se predispunha a fazer, recebia o pagamento e novamente era deixada no local onde esperava pacientemente pelo próximo cliente que sempre lhe dizia que a procurava para receber o que não recebia em casa.

O que esperar desse blog

Quem gostar de literatura real! De acontecimentos que mostram o cotidiano de forma romanceada ou mesmo bem humorada, misturando ficção e realidade, poderá diariamente acessar esta página e ler ou copiar pequenos trechos de narrativas que juntas, tornar-se-ão romances completos.
Iniciaremos pela história verídica de Patricia, uma garota de programa que, mesmo diante da discriminação social, tambem denominada vampirismo, conseguiu vencer preconceitos e fez de sua vida uma fênix, alçando vôo de encontro ao mestre.
É isto este blog... é isto a verdade em forma de romance...