Quando ainda na pré adolescência e ouviu a palavra psicopata em uma matéria de televisão, Luciana, sua mente já desenhou a imagem de um homem monstruoso, com dentes pontiagudos e até mesmo semelhantes às figuras demoníacas que por vezes via em revistas em quadrinhos que seu irmão Marcos lia escondido dos pais. Descobrira o esconderijo não tão secreto das revistas em quadrinhos, e as pornográficas do irmão quando foi arrumar sua cama assim que ele saía para a escola pela manhã.
Sentava na cama por alguns minutos e folheava as em quadrinhos de heróis que combatiam aquelas figuras que mostravam toda a maldade nas aparências propositalmente desenhadas para a identificação de quem os olhasse. Heróis e criminosos estavam bem delineados em sua mente pela aparência.
Conforme fazia o serviço de arrumação das camas, sua curiosidade também foi despertada pela outra qualidade de revistas ali escondidas por Marcos e disfarçando ao máximo para não ser flagrada por sua mãe, Luciana passou a ter seus desejos íntimos despertados pelas fotografias e histórias nada educativas estampadas nas páginas que tinham um poder mágico de fazê-la ter pesadelos à noite.
Chegou mesmo a pegar algumas daquelas revistas e mostrar para amiguinhas na escola, onde freqüentava o ensino fundamental após o almoço. Riam nervosamente e faziam piadinhas com o conteúdo das páginas entre si, e também aproveitavam para traçar comparações entre os modelos estampados e seus amiguinhos e amiguinhas, mas jamais confessara o que aquilo fazia intimamente com ela.
Assim passaram-se os anos e Luciana conseguiu manter-se casta e pura até os quinze anos, quando surgiu em seu caminho um rapaz moreno, alto, de porte atlético e possuidor de dois olhos esverdeados que a hipnotizavam. Agora seus sonhos enquanto desperta e pesadelos quando dormia eram tão intensos que ela não mais conseguia dominar-se.
Tudo fez para ser notada por aquele exemplar de beleza masculina que fazia com que os modelos das revistas que lia às escondidas ficassem em segundo plano em seus pensamentos, e assim, em uma festinha de aniversário de uma amiga, foi abordada por Ivan que além de belo, mostrou-lhe uma faceta romântica e carinhosa, além até de seus sonhos mais secretos.
Foi totalmente dominada por aquele homem e tornou-se mulher em todos os sentidos, não tendo pudor em entregar-se à paixão avassaladora que não tinha fim. Era tudo o que mais queria na vida. E ainda por cima, era tratada como toda mulher em seu mais íntimo desejaria. E também invejada pelas amigas.
Foi surpreendida um ano depois, ao saber que Ivan havia sido preso por roubo, juntamente com outros dois amigos.
Tudo fez para poder visitá-lo e até mesmo seus pais a apoiaram em seus desejos, pois presenciavam a forma como Ivan tratava sua filha e nada tinham a opor ao namoro que estava consolidado.
Por ser primário e pela disciplina mostrada dentro do Presídio, mesmo sentenciado, foi beneficiado com remissão de sua pena, uma vez que era o responsável pela alimentação dos outros detentos e após um ano e dois meses, saiu da cadeia e ganhou a liberdade.
Enquanto no presídio, o carinho e o amor de Ivan para com Luciana pareceu ganhar mais força ainda e naquele dia semanal em que ela o visitava, parecia cada vez ser o mais feliz de toda sua existência.
A liberdade de Ivan foi acolhida por Luciana que conversara muito com ele a respeito do acontecido, e a promessa de que não haveria uma segunda vez não deixava duvidas quanto ao cumprimento por parte dele.
Assim transcorreram mais alguns meses de verdadeira paixão de um para com o outro até que, em um sábado, passeando com o amado em posto de combustíveis na Avenida Brasil, local que servia de ponto de encontro de jovens, foi alvo de deboche de outra garota, que no momento estava acompanhada de um rapaz e era perceptível a embriagues de ambos.
Sentiu, mais do que viu, Ivan simplesmente sacar uma arma da cintura e friamente disparar contra o casal sem a menor piedade. Olhou para o namorado e não acreditou no acontecido, pois até então, só conhecia o lado angelical daquele ser que a tratava como a mais amada das mulheres.
Era como se estivesse em um pesadelo que a deixava estática, sem reação alguma. Sua mão direita foi carinhosamente envolvida pela mão de Ivan e ouviu-o dizer que tinham que sair dali para não terem problemas. Foi levada para o carro que usavam e não se apercebia que Ivan ainda mantinha na mão a arma com a qual matara dois jovens.
Ele simplesmente balbuciava ininterruptamente: “A culpa é deles mesmos, quem mandou debochar da minha mulher?!”, até que chegaram a sua casa e ele a mandou entrar, pois ele tinha mais uma coisa a fazer, sem explicar o que.
Parece que sua mente desligou ao ver a porta de casa, pois só tomou consciência de si mesma na manhã seguinte, ao acordar e saber pela mãe, que os fatos vividos por ela eram reais, pois a Polícia estivera ali à procura de Ivan, e que além das duas mortes dos jovens, também havia executado outro rapaz na região do lago.
Alguns dias se passaram sem que Ivan lhe desse sequer um telefonema, e foi um suplicio para Luciana, que precisava ouvir dele as explicações para o que realmente havia lhe acontecido.
Os repórteres, tanto em rádio quanto na televisão, tratavam Ivan como um frio psicopata, e Luciana não conseguia acreditar naquilo, pois até então, tal palavra remetia para seu cérebro a imagem mental de seres horripilantes, e não de um lindo rapaz, de olhos meigos e carinhosos como Ivan.
Depois que ele foi preso e o visitou no final de semana, percebeu que era o mesmo Ivan, que a cobria de carinhos e amor em toda plenitude, já que novamente sentiu-se a mais amada das mulheres.
Procurou informar-se junto a profissionais de psicologia e soube que o seu querido Ivan era o que se denomina psicopata, vagando entre os extremos dos sentimentos, mas jamais assumindo um isoladamente. Que ele amava incondicionalmente da mesma maneira que o fazia com o ódio quando aflorava.
E isso ficou novamente comprovado, quando soube que Ivan havia cometido mais um homicídio no interior do Presídio, degolando completamente a vítima e testemunhas viam que ele sorria com satisfação enquanto o fazia.
Ela jamais acreditaria em histórias em quadrinhos, pois elas traziam os criminosos e psicopatas com uma imagem distorcida. Ela jamais iria conseguir acreditar em uma vida com Ivan, pois assim como foi enganada pelas revistas pornográficas, que em mente foram responsáveis por ter se entregado a ele, sua história também deixou de ter o significado que seus sonhos lhe prometeram.
Se Ivan não conseguia deixar de ser contraditório em seus sentimentos, ela teria que contradizer o próprio CORAÇÃO.

