Logo ao raiar do dia, José Machado de Assis, também conhecido pelos amigos por “deixa que eu chuto”, por mancar de uma perna, acordava, pegava seu carrinho onde recolhia material reciclável e saía, sem ao menos um gole de café.
Naquela manhã fria não foi diferente, e logo em uma de suas primeiras coletas, diante de um prédio suntuoso localizado na Rua Minas Gerais, deu graças a Deus pela sorte, pois havia um monte de papelão de caixas desmontadas, possivelmente de uma mudança realizada no dia anterior e ainda encontrou uma bicicleta “tico-tico”, com apenas uma roda rachada. Novamente bendisse sua sorte, pois dentro de três dias seu filho caçula Michael Jackson da Silva, faria aniversário e ali estava o presente. Imaginava o pequeno brincando com aquela bicicletinha diante de seu casebre e riu por dentro.
Enquanto separava o material e ajeitava no carrinho que até o final da tarde ficaria abarrotado, viu uma moça cambaleante sair do prédio, com os cabelos desgrenhados e as roupas rasgadas. Percebeu também que ela estava com hematomas no rosto e chorava. Apesar de ter um nome famoso, conforme lhe disseram quando menino, não tinha talento para escritor, sem contar também que aprendera com a vida nas ruas, que não devia envolver-se em problemas alheios. Procurou esquecer a cena presenciada, mas durante o dia, a imagem da moça não lhe saía da cabeça, mesmo sem saber o pesadelo que ela vivera durante toda a noite, no interior de um apartamento luxuoso, mas que fora sua câmara de tortura.
Na noite anterior, Patrícia que já estava fazendo o trabalho de levar pacotes encomendados de um lugar a outro, recebeu a incumbência de transportar algo que não sabia o que continha, ao prédio luxuoso. Como costumeiramente fazia, pegou um moto taxi e fez o trajeto pensando no dinheiro que ganharia e que serviria para ajudar seu namorado Marcos na Cadeia.
Ao chegar ao local, o porteiro disse-lhe que haviam pedido que subisse com o pacote até o apartamento. Era algo inédito para ela, mas não se fez de rogada e pegou o elevador. Ao chegar à porta, foi recebida por um jovem rapaz de aparência agradável que a convidou para entrar.
No interior do apartamento, outros três rapazes estavam sentados em um sofá na sala espaçosa e o que a recepcionou, tomou o pacote de suas mãos afoitamente e abriu-o em uma mesa de centro com tampo de vidro, sendo rodeado rapidamente pelos outros jovens que davam vivas para o conteúdo.
Era a primeira vez que Patrícia via o conteúdo de suas entregas e ao ouvi-los, soube que era cocaína da pura. Falou quase que de chofre, que se eles a pagassem pela mercadoria, ela iria embora, pois tinha mais entregas a fazer.
- Nada disso lindinha! – falou o que a recebeu à porta, virando-se para ela. – Vamos fazer uma festinha todos nós! E você vai participar!
- Eu não faço isso moço, não uso drogas! – respondeu quase sem perceber.
- Sempre tem a primeira vez menina! – riu outro rapaz que se levantou e a pegou pelo braço brutalmente. – E não só isso! Vai nos deixar na mão depois de a gente usar esse produto de primeira que com certeza vai deixar a gente doidão?
- Eu tenho outras entregas a fazer moço! – falou Patrícia tentando desvencilhar-se da mão que a apertava próximo ao cotovelo, enquanto os outros se levantavam e a rodeavam e já a bolinavam.
- Aqui é assim menina, e seu patrão já está sabendo que a gente vai se divertir contigo e você vai se divertir com a gente! – falou o que a recebera à porta, bem próximo ao seu ouvido enquanto passava as mãos por seu ventre.
- Ou acha que ele mandou você, que é garota de programa, por quê? – falou asperamente outro dos rapazes – O serviço completo está incluído no preço que combinamos!
Patrícia já se sentia impotente diante daqueles quatro rapazes que repentinamente lhe pareciam animais descontrolados e tentou conversar, mas não lhe davam ouvidos. Era manipulada de todas as formas por três dos rapazes enquanto o quarto preparava as carreiras de cocaína no tampo da mesa de centro. Quando foram avisados que o produto estava pronto para ser usado, os rapazes exigiram que ela fosse a primeira a cheirar e enquanto ela o fazia, ajoelhada no chão, com um tubo colocado na narina, percebeu que todos os olhares observavam se ela realmente estava fazendo o certo.
Recebeu como que uma pancada na cabeça ao aspirar aquele pó branco e antes mesmo que pudesse respirar ar puro, colocaram um copo de uísque em sua boca e a fizeram engolir. Sentiu que parte do liquido escorreu por seu queixo, mas foi a ultima sensação consciente. Mergulhou em uma névoa que lhe dava a sensação de estar voando e não mais sentiu as carícias que até aquele momento a incomodavam.
Foi usada pelos quatro rapazes que se revezavam em sua boca, costas e entre suas pernas como se fosse uma boneca inanimada, ouvindo os risos e palavrões que proferiam, sem, contudo atinar para o significado daquilo.
Não sabe quanto tempo durou o suplicio e apenas tomou consciência, quando os primeiros raios de sol incidiram pela janela. Tocou o próprio rosto e sentiu-o inchado e dolorido, e vagamente lembrou-se de ter sido espancada e estapeada pelos rapazes enquanto gargalhavam. Seu corpo estava como que esmagado por um torno, e em cada local que colocava as mãos, gemidos de dor saíam de sua boca incontrolavelmente.
Levantou-se e procurou suas roupas rasgadas espalhadas pela sala, onde os quatro rapazes dormiam no chão, como corpos inertes, e procurou vestir-se rapidamente para sair daquele local o mais rápido possível, mas a cada movimento, lágrimas de dor afluíam de seus olhos.
- Se gostou pode voltar, mas se não gostou, pode procurar os merdas da polícia, pois meu pai é rico e manda em todos eles! – Patrícia ouviu o rapaz que a recepcionara e ao olhar para o lugar de onde provinha a voz debochada, viu que ele nem mesmo se dignava a levantar, mas continuava deitado e apenas seus olhos estavam abertos. – Ah, a porta está aberta, quando sair, feche devagar para não fazer barulho, que eu estou com dor de cabeça! – terminou o rapaz com uma gargalhada debochada.
Saiu do apartamento e enquanto descia pelo elevador, Patrícia chegou mesmo a pensar em denunciar o acontecido, mas ela própria demoveu-se da idéia, pois o que iria dizer? “Que uma garota de programa foi fazer uma entrega de drogas e foi brutalmente espancada e estuprada por três filhinhos de papai?”
Com certeza ririam dela. A ultima frase do rapaz bailava em sua mente enquanto ganhava a rua afastando-se daquele prédio luxuoso, mas que para ela era o castelo do horror, e tentava situar-se para encontrar o melhor caminho para chegar até sua casa e nem ao menos percebeu um homem que recolhia papelões diante do prédio.
Os três próximos dias foi um suplício para Patrícia, pois suas necessidades fisiológicas lhe causavam verdadeiras torturas. Seu estomago já não tinha mais nada para eliminar, mas continuava a sentir ânsias o tempo todo. Passou todo aquele tempo tomando analgésicos na tentativa de amenizar as dores, e quando o fazia, seu estomago não aceitava o remédio e nem mesmo a água ingerida, devolvendo tudo.
Pensou diversas vezes em procurar forma de punição para os rapazes, mas sempre percebia o absurdo de tais pensamentos.
Só muito tempo depois, sou que se o fizesse, poderia ter mudado o destino de outra vítima inocente de um daqueles rapazes, exatamente o mais irônico de todos.
Soube que em uma de suas irresponsabilidades, o rapaz que era filho de um industrial madeireiro, ao fazer o que se chama de “roleta paulista”, que é dirigir em alta velocidade por ruas não preferenciais, bateu em outro carro e o condutor do veículo por ele abalroado faleceu no local.
Soube que a vítima em questão era um rapaz de sobrenome Rotta e realmente percebeu que se denunciasse seu agressor, ele não seria punido, pois mesmo diante do absurdo que praticara, ao tirar a vida de um inocente, continuou impune.
Ela enfrentou a tempestade dos filhinhos de papai que cada vez mais podem praticar o impraticável sem temor de represálias, e mesmo como garota de programa e até mesmo avião de traficantes, não fugiu de pagar por suas responsabilidades e procurará uma nova chance de vida, custe o que custar.


