sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

SOZINHA NA TEMPESTADE

Logo ao raiar do dia, José Machado de Assis, também conhecido pelos amigos por “deixa que eu chuto”, por mancar de uma perna, acordava, pegava seu carrinho onde recolhia material reciclável e saía, sem ao menos um gole de café.
Naquela manhã fria não foi diferente, e logo em uma de suas primeiras coletas, diante de um prédio suntuoso localizado na Rua Minas Gerais, deu graças a Deus pela sorte, pois havia um monte de papelão de caixas desmontadas, possivelmente de uma mudança realizada no dia anterior e ainda encontrou uma bicicleta “tico-tico”, com apenas uma roda rachada. Novamente bendisse sua sorte, pois dentro de três dias seu filho caçula Michael Jackson da Silva, faria aniversário e ali estava o presente. Imaginava o pequeno brincando com aquela bicicletinha diante de seu casebre e riu por dentro.
Enquanto separava o material e ajeitava no carrinho que até o final da tarde ficaria abarrotado, viu uma moça cambaleante sair do prédio, com os cabelos desgrenhados e as roupas rasgadas. Percebeu também que ela estava com hematomas no rosto e chorava. Apesar de ter um nome famoso, conforme lhe disseram quando menino, não tinha talento para escritor, sem contar também que aprendera com a vida nas ruas, que não devia envolver-se em problemas alheios. Procurou esquecer a cena presenciada, mas durante o dia, a imagem da moça não lhe saía da cabeça, mesmo sem saber o  pesadelo que ela vivera durante toda a noite, no interior de um apartamento luxuoso, mas que fora sua câmara de tortura.
 Na noite anterior, Patrícia que já estava fazendo o trabalho de levar pacotes encomendados de um lugar a outro, recebeu a incumbência de transportar algo que não sabia o que continha, ao prédio luxuoso. Como costumeiramente fazia, pegou um moto taxi e fez o trajeto pensando no dinheiro que ganharia e que serviria para ajudar seu namorado Marcos na Cadeia.
Ao chegar ao local, o porteiro disse-lhe que haviam pedido que subisse com o pacote até o apartamento. Era algo inédito para ela, mas não se fez de rogada e pegou o elevador. Ao chegar à porta, foi recebida por um jovem rapaz de aparência agradável que a convidou para entrar.
No interior do apartamento, outros três rapazes estavam sentados em um sofá na sala espaçosa e o que a recepcionou, tomou o pacote de suas mãos afoitamente e abriu-o em uma mesa de centro com tampo de vidro, sendo rodeado rapidamente pelos outros jovens que davam vivas para o conteúdo.
Era a primeira vez que Patrícia via o conteúdo de suas entregas e ao ouvi-los, soube que era cocaína da pura. Falou quase que de chofre, que se eles a pagassem pela mercadoria, ela iria embora, pois tinha mais entregas a fazer.
- Nada disso lindinha! – falou o que a recebeu à porta, virando-se para ela. – Vamos fazer uma festinha todos nós! E você vai participar!
- Eu não faço isso moço, não uso drogas! – respondeu quase sem perceber.
- Sempre tem a primeira vez menina! – riu outro rapaz que se levantou e a pegou pelo braço brutalmente. – E não só isso! Vai nos deixar na mão depois de a gente usar esse produto de primeira que com certeza vai deixar a gente doidão?
- Eu tenho outras entregas a fazer moço! – falou Patrícia tentando desvencilhar-se da mão que a apertava próximo ao cotovelo, enquanto os outros se levantavam e a rodeavam e já a bolinavam.
- Aqui é assim menina, e seu patrão já está sabendo que a gente vai se divertir contigo e você vai se divertir com a gente! – falou o que a recebera à porta, bem próximo ao seu ouvido enquanto passava as mãos por seu ventre.
- Ou acha que ele mandou você, que é garota de programa, por quê? – falou asperamente outro dos rapazes – O serviço completo está incluído no preço que combinamos!
Patrícia já se sentia impotente diante daqueles quatro rapazes que repentinamente lhe pareciam animais descontrolados e tentou conversar, mas não lhe davam ouvidos. Era manipulada de todas as formas por três dos rapazes enquanto o quarto preparava as carreiras de cocaína no tampo da mesa de centro. Quando foram avisados que o produto estava pronto para ser usado, os rapazes exigiram que ela fosse a primeira a cheirar e enquanto ela o fazia, ajoelhada no chão, com um tubo colocado na narina, percebeu que todos os olhares observavam se ela realmente estava fazendo o certo.
Recebeu como que uma pancada na cabeça ao aspirar aquele pó branco e antes mesmo que pudesse respirar ar puro, colocaram um copo de uísque em sua boca e a fizeram engolir. Sentiu que parte do liquido escorreu por seu queixo, mas foi a ultima sensação consciente. Mergulhou em uma névoa que lhe dava a sensação de estar voando e não mais sentiu as carícias que até aquele momento a incomodavam.
Foi usada pelos quatro rapazes que se revezavam em sua boca, costas e entre suas pernas como se fosse uma boneca inanimada, ouvindo os risos e palavrões que proferiam, sem, contudo atinar para o significado daquilo.
Não sabe quanto tempo durou o suplicio e apenas tomou consciência, quando os primeiros raios de sol incidiram pela janela. Tocou o próprio rosto e sentiu-o inchado e dolorido, e vagamente lembrou-se de ter sido espancada e estapeada pelos rapazes enquanto gargalhavam. Seu corpo estava como que esmagado por um torno, e em cada local que colocava as mãos, gemidos de dor saíam de sua boca incontrolavelmente.
Levantou-se e procurou suas roupas rasgadas espalhadas pela sala, onde os quatro rapazes dormiam no chão, como corpos inertes, e procurou vestir-se rapidamente para sair daquele local o mais rápido possível, mas a cada movimento, lágrimas de dor afluíam de seus olhos.
- Se gostou pode voltar, mas se não gostou, pode procurar os merdas da polícia, pois meu pai é rico e manda em todos eles! – Patrícia ouviu o rapaz que a recepcionara e ao olhar para o lugar de onde provinha a voz debochada, viu que ele nem mesmo se dignava a levantar, mas continuava deitado e apenas seus olhos estavam abertos. – Ah, a porta está aberta, quando sair, feche devagar para não fazer barulho, que eu estou com dor de cabeça! – terminou o rapaz com uma gargalhada debochada.
Saiu do apartamento e enquanto descia pelo elevador, Patrícia chegou mesmo a pensar em denunciar o acontecido, mas ela própria demoveu-se da idéia, pois o que iria dizer? “Que uma garota de programa foi fazer uma entrega de drogas e foi brutalmente espancada e estuprada por três filhinhos de papai?”
Com certeza ririam dela. A ultima frase do rapaz bailava em sua mente enquanto ganhava a rua afastando-se daquele prédio luxuoso, mas que para ela era o castelo do horror, e tentava situar-se para encontrar o melhor caminho para chegar até sua casa e nem ao menos percebeu um homem que recolhia papelões diante do prédio.
Os três próximos dias foi um suplício para Patrícia, pois suas necessidades fisiológicas lhe causavam verdadeiras torturas. Seu estomago já não tinha mais nada para eliminar, mas continuava a sentir ânsias o tempo todo. Passou todo aquele tempo tomando analgésicos na tentativa de amenizar as dores, e quando o fazia, seu estomago não aceitava o remédio e nem mesmo a água ingerida, devolvendo tudo.
Pensou diversas vezes em procurar forma de punição para os rapazes, mas sempre percebia o absurdo de tais pensamentos.
Só muito tempo depois, sou que se o fizesse, poderia ter mudado o destino de outra vítima inocente de um daqueles rapazes, exatamente o mais irônico de todos.
Soube que em uma de suas irresponsabilidades, o rapaz que era filho de um industrial madeireiro, ao fazer o que se chama de “roleta paulista”, que é dirigir em alta velocidade por ruas não preferenciais, bateu em outro carro e o condutor do veículo por ele abalroado faleceu no local.
Soube que a vítima em questão era um rapaz de sobrenome Rotta e realmente percebeu que se denunciasse seu agressor, ele não seria punido, pois mesmo diante do absurdo que praticara, ao tirar a vida de um inocente, continuou impune.
Ela enfrentou a tempestade dos filhinhos de papai que cada vez mais podem praticar o impraticável sem temor de represálias, e mesmo como garota de programa e até mesmo avião de traficantes, não fugiu de pagar por suas responsabilidades e procurará uma nova chance de vida, custe o que custar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Um caso estranho

Se a vida era um pesadelo para Patrícia, o que ela vivia enquanto dormia era ainda mais, pois toda noite enquanto dormia, fazia o trajeto de sua casa até aquele gramado embaixo do pé de Sinamão, onde sobraçava sua mochila com as poucas roupas e ficava com o olhar perdido enquanto um torvelinho de pensamentos açoitava sua mente.
Flashes de sua mãe dentro do caixão mesclavam-se com a voz entoando canções de ninar e a voz de Pedro dizendo-lhe que deveria ir embora, pois daquele dia em diante seria apenas um estorvo prá ele, eram substituídas por lembranças de um dia em que tropeçou em uma sacola contendo um vestido infantil na sala da casa onde morava, e pode vislumbrar que a peça de roupa estava manchada.
Gritos infantis oriundos da escola do outro lado da rua eram como sons de fundo para a voz do padrasto chamando-a de desastrada enquanto recolhia a sacola e enfiava o conteúdo com vigor, de forma a que ela não pudesse identificar bem o que era.
- Além de não ser boazinha e brincar gostoso com este homem que te dá comida, casa e tudo o que precisa, ainda vai querer estragar meus brinquedos? – relembrou Patrícia a frase proferida por Pedro em tom irritado.
Ela não tinha a menor noção do que aquele homem falava, pois não soubera que dias antes a Polícia havia encontrado uma garotinha totalmente despida e morta com requintes de crueldade sexual e até então, não tinham pista do homicida. Era uma frase que a incomodava, mas não sabia seu real significado.
Por brincadeira, Patrícia sabia que Pedro lhe pedia para tomar banho sempre que sua mãe não estava em casa, e algumas vezes lhe oferecia ajuda para ensaboá-la. E enquanto o fazia, dizia que estava brincando com ela. Com o decorrer do tempo, ela foi ficando incomodada e quando ia tomar banho, negava o pedido dele e trancava a porta do banheiro, mas percebia que ele a espiava pelo buraco da fechadura.
Todos esses pensamentos estavam vívidos em seus pesadelos noturnos, que só tinham fim quando novamente ouvia a voz de Tânia perguntando se ela estava matando aula. Aí acordava e via a amiga que a recolheu quando foi expulsa de casa, na cama ao lado e permitia-se até mesmo ter um pouco de paz.
Não sabia Patrícia, que aquele que a expulsou por saber que ela nunca ia querer brincar com ele, anos depois seria responsável por mais um crime brutal semelhante ao que praticara no passado e identificado, encontrara uma recepção digna em meio aos marginais. Dois dias após sua prisão, foi encontrado em sua cela, enforcado com um fio de luz. A perícia atestou que antes de morrer, Pedro havia tomado quase um litro de água fervente, e seus pés estavam totalmente queimados, bem como suas mãos. Oficialmente o suicídio foi testemunhado por todos os presos daquela Cadeia.
Esses pesadelos de Patrícia sumiram com o tempo, mas outros apareceram, porém nem sempre enquanto ela dormia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Capítulo quinze... “O inesperado onde menos se imagina...”

Durante o jantar, Patrícia continuava discorrendo sobre suas aventuras para aquele que seria seu “ghost writer”, ou em português “escritor fantasma”. Falava o tempo todo, contando como viveu aquele poucos, porém repletos de altos e baixos, anos em que seu corpo foi usado por homens, mulheres e até mesmo casais que diziam querer “apimentar” a relação.
Com certeza renderia um romance, mas o escritor disse-lhe faria alguns capítulos apenas de um romance não muito aprofundado e depois sim, escreveria contos sobre o que ela lhe contara com temas e relatos mais apurados e melhor elaborados.
O capítulo final desse pequeno romance, no entanto, seria além de seu encontro inesperado, também a sua redenção para uma nova vida.
O inesperado aconteceu exatamente quando Patrícia estava presa na Cadeia Pública e em uma noite chuvosa, viu descer pelo corredor uma mulher de cerca de 30 anos, mas que naquele momento mostrava mais idade, devido ao abatimento psicológico de ter sido presa. O nome dela era Elisa, de nacionalidade paraguaia, e que foi flagrada trazendo materiais de informática de forma ilegal. O tradicional contrabando.
Patrícia foi à encarregada de recepcioná-la, ainda sem saber o motivo que a levava até ali, e levando-a para sua cela, soube que a mulher era proprietária de uma pequena loja comercial no país vizinho e por vezes fazia o transporte de tais mercadorias e os entregava na cidade de sua prisão. Tentou consolá-la dizendo que em tais casos, dois ou três seriam suficientes para que recebesse o Alvará de Liberdade Provisória, mas a mulher mostrava-se tensa e nervosa com o acontecido.
A aproximação de ambas foi consolidando-se conforme conversavam, e Patrícia teve a primeira surpresa ao sentir-se acariciada de forma cada vez mais intima por Elisa. Já tivera experiências anteriores com mulheres, pois durante o período de garota de programa, muitas vezes foi levada por casais ou mesmo por algumas socialytes para festas intimas e não lhe eram desagradáveis os carinhos femininos.
Permitiu-se ser acariciada e beijada e percebeu que Elisa aos poucos ia relaxando conforme o relacionamento tornava-se mais profundo. Inicialmente Patrícia acreditou que seria apenas mais uma noite de sexo prazeroso, mas no dia seguinte, ambas sentiram-se mais próximas e até mesmo entristeceram-se ao chegar o Alvará de Soltura de Elisa dois dias depois.
Ao se despedirem, Elisa disse-lhe que a procurasse em sua loja assim que saísse e entregou-lhe um cartão de visitas com o endereço e telefone de contato.
Devido ao local não ser organizado, Patrícia perdeu o cartão e ao sair, pediu ao escritor que lhe conseguisse formas de localizar Elisa, pois sabia que era uma alternativa prá uma mudança de vida.
E foi exatamente essa informação que recebeu naquela noite durante o jantar e no dia seguinte, com dinheiro emprestado do amigo em questão, foi em direção à única alternativa de nova vida que lhe surgiu, sendo surpreendida por encontrar o que tanto esperava dentro de uma cadeia.
Três anos depois desse jantar, Patrícia recebeu a visita do amigo na loja de Elisa e pode mostrar toda a felicidade que a nova vida lhe reservada, pois além de estar estudando e profissionalizando-se como comerciante, também finalmente encontrara o amor verdadeiro.
De resto sabia que suas memórias renderiam ao amigo, não só um romance que mostraria sua redenção, mas também muitas histórias que seriam transformadas em contos.