Mesmo com apenas o braço direito funcionando como gostaria, após ter sido acometida de um AVC, Maria jamais deixava de escovar os cabelos de sua neta Jade antes de dormir. Era uma prática comum para as duas, conversarem sobre o dia enquanto os cabelos da pequena que estava entrando na adolescência, na flor de seus treze anos, eram escovados incessantemente pela avó que assumira sua criação.
- Porque meu nome é Jade, vó? – indagou repentinamente a pequena.
- Parece que sua mãe ouviu essa palavra quando estava grávida, e soube que era uma pedra preciosa, e assim, como sabia que você seria essa pedra linda e preciosa como tem se mostrado, deu esse nome a você! – respondeu orgulhosamente Maria.
Por pedra preciosa, Maria queria dizer que a neta demonstrava ser forte, mesmo tendo sido criada sem a mãe, e mais ainda, por ser boa estudante e ajudante em todas as tarefas da casa. Também tinha uma educação acima do normal para uma garota de sua idade e nunca havia demonstrado rebeldia.
- Você me dá uma pedra jade no meu aniversário segunda feira, vó? – perguntou a menina de forma ingênua e pura, pois ainda não conhecia o real valor do dinheiro para seus avós que viviam apenas com a aposentadoria minguada do avô.
- Eu não sei se a gente vai poder filha! – quase gemeu Maria, pois sabia que o único presente que poderia dar à neta era mais uma boneca, que ela colecionava e as deixava em sua cama voltadas com o rosto para a porta, e antes de sair para a escola, jogava beijos em despedida e dizia-lhes para que a esperassem que logo voltasse. – Mas a boneca que queria, com os olhos verdes, pode ter o nome de Jade filha, e essa, nós vamos lhe dar!
- Jura vó? – empolgou-se a pequena, quase pulando e derrubando a escova de cabelos da mão da avó, que divertidamente ralhou com ela dizendo que parasse de bagunça que seus cabelos estavam todos emaranhados.
Na segunda, realmente durante a pequena reunião de amiguinhos entupindo-se com um bolo caseiro e salgadinhos, Jade apresentou a “Jade filha” à todos, com orgulho próprio de uma mãe e fez a inveja de muitas de suas amiguinhas que também gostavam de tais brinquedos.
Assim foi durante alguns dias, sempre colocando Jade filha na frente das outras bonecas em cima da cama e ao sair, dizia que elas não precisavam ficar tristes, pois logo a mamãe estaria de volta.
Em uma quarta feira, ao entrar no quarto de Jade, Maria percebeu que as bonecas não estavam com a mesma arrumação e sim, deitadas como se com o rosto escondido. Deu-se conta também que naquele dia, Jade mostrava-se diferente, como se algo a estivesse incomodando, e só agora havia percebido.
Um arrepio percorreu o corpo de Maria que decidiu ir à escola esperar pela neta, pois algo não estava normal, nem naquele dia, e também na forma de Jade agir, e pedindo a Deus que a protegesse do que quer que pudesse estar acontecendo, saiu sem ao menos dar-se conta de ter deixado a porta do quarto e de casa abertas.
Cerca de meia quadra antes da Escola de Jade, Maria temeu o que estava vendo, pois uma viatura policial e uma de socorro médico ali estavam e uma multidão aglomerava-se na rua.
- Parece que uma menina levou um tiro! – ouviu uma mulher falando ao passar rapidamente por ela e atirar-se pelo portão sem que a pudessem segurar.
No dia seguinte, os jornais estamparam a noticia de que um garoto, ao mostrar uma arma que levava escondido para a escola, disparara acidentalmente e acertara a cabeça de uma coleguinha, matando-a instantaneamente.
Maria e Antenor não leram os jornais e também preferiram não ligar televisão ou rádio e apenas sentavam no quarto da neta, a avó com a escova de cabelos nas mãos e o avô embalando a Jade filha.
Todas as outras bonecas não olhavam para a porta, pois sabiam que sua amiguinha não mais retornaria, mas estava dessa vez deitadas com os olhos voltados para o céu, como a verem só o que elas poderiam ver.
- A pedra preciosa, a pedra, preciosa! – balbuciou Maria como se estivesse vendo um brilho verde a entrar pela janela no entardecer de mais um dia.

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