Se a vida era um pesadelo para Patrícia, o que ela vivia enquanto dormia era ainda mais, pois toda noite enquanto dormia, fazia o trajeto de sua casa até aquele gramado embaixo do pé de Sinamão, onde sobraçava sua mochila com as poucas roupas e ficava com o olhar perdido enquanto um torvelinho de pensamentos açoitava sua mente.
Flashes de sua mãe dentro do caixão mesclavam-se com a voz entoando canções de ninar e a voz de Pedro dizendo-lhe que deveria ir embora, pois daquele dia em diante seria apenas um estorvo prá ele, eram substituídas por lembranças de um dia em que tropeçou em uma sacola contendo um vestido infantil na sala da casa onde morava, e pode vislumbrar que a peça de roupa estava manchada.
Gritos infantis oriundos da escola do outro lado da rua eram como sons de fundo para a voz do padrasto chamando-a de desastrada enquanto recolhia a sacola e enfiava o conteúdo com vigor, de forma a que ela não pudesse identificar bem o que era.
- Além de não ser boazinha e brincar gostoso com este homem que te dá comida, casa e tudo o que precisa, ainda vai querer estragar meus brinquedos? – relembrou Patrícia a frase proferida por Pedro em tom irritado.
Ela não tinha a menor noção do que aquele homem falava, pois não soubera que dias antes a Polícia havia encontrado uma garotinha totalmente despida e morta com requintes de crueldade sexual e até então, não tinham pista do homicida. Era uma frase que a incomodava, mas não sabia seu real significado.
Por brincadeira, Patrícia sabia que Pedro lhe pedia para tomar banho sempre que sua mãe não estava em casa, e algumas vezes lhe oferecia ajuda para ensaboá-la. E enquanto o fazia, dizia que estava brincando com ela. Com o decorrer do tempo, ela foi ficando incomodada e quando ia tomar banho, negava o pedido dele e trancava a porta do banheiro, mas percebia que ele a espiava pelo buraco da fechadura.
Todos esses pensamentos estavam vívidos em seus pesadelos noturnos, que só tinham fim quando novamente ouvia a voz de Tânia perguntando se ela estava matando aula. Aí acordava e via a amiga que a recolheu quando foi expulsa de casa, na cama ao lado e permitia-se até mesmo ter um pouco de paz.
Não sabia Patrícia, que aquele que a expulsou por saber que ela nunca ia querer brincar com ele, anos depois seria responsável por mais um crime brutal semelhante ao que praticara no passado e identificado, encontrara uma recepção digna em meio aos marginais. Dois dias após sua prisão, foi encontrado em sua cela, enforcado com um fio de luz. A perícia atestou que antes de morrer, Pedro havia tomado quase um litro de água fervente, e seus pés estavam totalmente queimados, bem como suas mãos. Oficialmente o suicídio foi testemunhado por todos os presos daquela Cadeia.
Esses pesadelos de Patrícia sumiram com o tempo, mas outros apareceram, porém nem sempre enquanto ela dormia.

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