segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Capítulo dois... "Cinzas ainda"

Se lhe fosse dado o dom da palavra ou mesmo da escrita, suas memórias renderiam um livro cheio de histórias grotescas sem início ou fim. Saudades só mesmo da mãe, a única em que suas memórias não lhe havia causado frustração. Lembrava-se dela, de sua paciência, de seus afagos e especialmente das lágrimas que vertiam cada vez que a embalava a noite quando febril. Ao pensar na mãe, Patrícia ouvia a voz entoar “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, mesmo sem ter a menor idéia do significado de tais palavras, e assim se permitia embalar. Embalo totalmente diferente do que estava tendo naquele momento em que apenas pensava em receber logo um esguicho hormonal e saber que poderia voltar a olhar o mundo à sua volta.
A garotinha Patrícia que se tornou mulher sem saber ao menos o significado daquilo, estava sendo usada novamente apenas como um depósito da libido masculina, como de resto foi toda sua vida. Nunca se perguntou por que havia chegado aquele ponto da vida, mas suas memórias, caso pudessem ser descritas, teriam inicio na morte de sua mãe, quando ainda com 11 anos de idade. Viu-se olhando para a mãe dentro do caixão, sem saber que daquele dia em diante a frase que era uma afirmação e que muito fora entoada por ela, passaria a ser sua companheira constante, mas de forma interrogativa. Haveria um além do horizonte?

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