quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Capítulo doze... “As terríveis memórias podem ser eternizadas”


Os dias que Patrícia passava nas ruas, por incrível que possa parecer para quem não conhece a realidade de quem não tem horizonte, era um emaranhado de sensações e sentimentos e o tempo todo, os dias de Cadeia afloravam-lhe à mente.
Lembrava-se especialmente de ter conhecido um presidiários que prestava serviços na Secretaria da Carceragem, o qual mostrava um bom humor acima do normal, mesmo naquela situação constrangedora. Toda manhã ele descia o corredor que levava até o quadrante que separava a ala masculina da feminina anunciando sua presença com piadas sobre sua beleza varonil, dizendo que sabia ser impossível a todas não se apaixonar por ele. E isso porque nada tinha de beleza, mas sim, uma simpatia a toda prova, tanto que até os homens recolhidos à prisão divertiam-se com as piadas dirigidas às mulheres.
Conversara todos os dias com ele, especialmente após o horário de expediente, quando o homem sentava-se em um sofá improvisado colocado perto da grade das celas femininas e era rodeado por todas as presidiárias que ouviam e dissertar sobre seus processos e explicava os pormenores dos casos jurídicos que as levaram até aquele lugar.
Patrícia sentia grande aproximação por ele, pois até então fora o único homem que não demonstrara querer seus préstimos sexuais. Sua confiança naquele homem foi crescendo e um dia, ao mostrar-lhe o livro que era seu companheiro constante, cuja história a fascinava por ter semelhança com sua própria vida, soube que ele também escrevia e pediu-lhe que então fizesse um livro com suas histórias.
Assim Patrícia começou a contar os detalhes de sua vida e soube que caso ele escrevesse um romance com tais histórias, seria na realidade uma biografia sua ou então um livro de memórias.
Começou contando a respeito da morte de sua mãe e da lembrança da musica que ela vivia cantando e ao entoar a frase: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, ele continuou a letra que não conhecia e que dizia: “Onde eu possa encontrar a natureza, alegria e felicidade com certeza...”
Patrícia perguntou-lhe se seria possível lhe conseguir o cd da musica e soube que era cantada pelo rei da musica brasileira, Roberto Carlos. No dia seguinte, pode ouvir todo o cd que ganhou de presente do seu amigo e escritor, que lhe disse que iria presenteá-la, mas só se ela permitisse que ele divulgasse suas memórias, até mesmo para alertar jovens quanto ao envolvimento com drogas e prostituição, e não se fez de rogada, cada vez mais abrindo suas memórias, procurando dar vazão aos sentimentos e mágoas há tanto adormecidas.
As histórias de Patrícia seriam escritas e com certeza muitos dos envolvidos nelas poderiam dar-se conta de que não usaram apenas um corpo, mas que dentro daquele corpo também havia um ser que jamais deixaria de entoar: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”

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