Só tomou consciência de sua verdadeira condição, no sábado seguinte, ao procurar por Marcos e ser totalmente ignorada. Viu-se diante de mais uma decepção em sua vida já plena de frustrações.
As lembranças do passado assombravam apenas o inconsciente de Patrícia, pois a realidade que se apresentava era tão ou mais assustadora, pois a liberdade recém conseguida não lhe parecia em nada com o que sonhara enquanto presa.
Naquele momento, a única realidade que sentia era o liquido viscoso em sua garganta, que, ao mesmo em que tempo que a enojava, mostrava-lhe o final da situação presente, em que a sobrevida exigia fosse aceita passivamente. Ao sair da cadeia, foi indagada de o porquê não encontrar um trabalho alternativo naquela ou em outra cidade e não mais fazer “ponto” na avenida disputando os melhores lugares com outras em igual situação.
- Porque na minha situação, qualquer pessoa fecharia a porta na minha cara! – rebateu mais que respondeu Patrícia diante da pergunta a si dirigida e emendou – Eu só poderia trabalhar de doméstica ou diarista! E quem daria emprego para uma moça que acaba de sair da cadeia depois de ter sido condenada por tráfico de drogas?
Quem lhe dirigiu a pergunta foi um dos agentes de carceragem, que diante da resposta amargurada, baixou os olhos como que a procurar alguma alternativa e em seguida espalmou as mãos demonstrando total falta de alternativas.
- Se souber de alguém que me acolha em sua casa, mesmo que também me use como prostituta particular, eu até agradeceria! – ironizou Patrícia e continuou em tom mais resignado – Hoje, por exemplo, se não conseguir um programa, não tenho onde possa dormir ou comer!
A realidade abateu-se sobre todos os que presenciavam Patrícia assinar o seu Alvará de Soltura, documento que a restituía à liberdade, e fizeram uma “vaquinha” a fim de dar-lhe algum dinheiro suficiente para pelo menos aquela noite, sabendo, no entanto, que o dia seguinte não reservava alternativa a ela.
Subindo a rampa que a levava até a rua e apenas com uma mochila contendo algumas poucas peças de roupas, um sabonete, pente e creme dental, além de um livro que tivera como companhia constante nos dois anos e dois meses que passara na cadeia e que agora também servia como cofre do seu documento de soltura cuidadosamente dobrado entre suas páginas, Patrícia parou sem saber qual rumo tomaria. Tanto fazia dirigir-se para a direita ou esquerda, pois seu horizonte jamais abrangeria mais que alguns poucos metros.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – entoou quase sem perceber que o fazia enquanto seguia pela rua que a levaria para o centro da cidade.

Seguidora a bordo.
ResponderExcluirParabéns e que suas palavras nunca tenham fim!!
A espera do próximo capítulo!! :)