terça-feira, 22 de março de 2011

Anjo/Demônio: Um peso inconsciente...


Ela já estava acostumada ao fato de ter que satisfazer suas necessidades sexuais sem participação do marido, ou até mesmo com ele, mas sempre com uma outra presença, de preferência feminina, escolhida por ele.
Quando então a adolescente, Maria conhecera João no que hoje é denominada balada e que naquela época dizia-se noitada em boate da moda, apaixonou-se à primeira vista. Não que outras vezes não se apaixonara. Muitas e muitas vezes sentira a paixão avassaladora, especialmente quando pegava carona para retornar para casa e deitava no colo do então candidato a namorado e o brindava com uma grande performance oral. Sua especialidade, diga-se de passagem, e do qual se orgulhava.
A performance também era praticada com algumas amigas, inicialmente por “experimentação ou brincadeiras”, e gradativamente foi tomando gosto pela modalidade. Menos explicita que atualmente claro.
Sempre pensando nesse passado, Maria aceitava o jogo do marido, atualmente empresário do ramo de atacado e com aspirações políticas, portanto, não poderia sequer pensar em separação ou mesmo em expor os fetiches e fantasias publicamente.
Tudo isso era presente em sua mente agora quando o inesperado surgiu em sua vida, na presença de um rapaz, amigo de sua filha e que estudava na mesma escola de elite e lhe sorria com indisfarçável malícia fixando seus olhos com uma força malévola, pois era perceptível o desejo que ambos nutriam um pelo outro.
Maria sentia o corpo em chamas ao vê-lo na saída da escola, e por vezes, até mesmo a figura de sua filha ficava em segundo plano. Imaginava-se aninhada naqueles braços malhados em horas de academia e mais ainda, sentia nos lábios o calor do corpo daquele que em seus delírios era o anjo e demônio de seus devaneios.
A razão lhe fugia. O instinto animal aflorava em tal ordem que toda a vida socialmente regrada até então não mais existia.
“Maria, Maria é um som, é uma certa magia, é uma estrela que nos alerta...” – ouviu a voz quase sussurrada em seus ouvidos, enquanto seus olhos não desgrudavam do portão da escola por onde sempre o via saindo, tendo as mãos suadas ao volante do carro luxuoso que ganhara de presente de aniversário do marido.
Voltou à cabeça e deparou-se com o sorriso maroto de Alex, seu demônio angelical e quase nem percebeu que a filha postava-se ao lado dele e euforicamente noticiava que finalmente estava apaixonada e que ambos estavam namorando.
Sentiu-se desfalecer e teve que fazer um esforço sobre humano para sorrir e parabenizar a filha pela escolha. O fogo continuava a existir e agora mais forte ainda, pois imaginava que tudo o que pensara fazer com Alex, sua filha estaria concretizando.
À Maria restava as outras aventuras, nas quais lançou-se com força maior ainda, e tanto rapazes quanto moças de programa lhes serviam de consolo pela perda do que jamais teria.
Irracional, uma vez esqueceu-se das normas de não procurar satisfação na cidade em que morava e foi flagrada pelo marido com uma garota de programa em seu próprio quarto, e foram necessários dez dias de repouso e tratamento das escoriações que o marido lhe infringiu pela desobediência.
Seus lábios continuam a carregar a cruz do instinto não satisfeito pelo calor do corpo de Alex, enquanto João galga degraus políticos.

sábado, 12 de março de 2011

Corre Escória

Não era a primeira vez que o chamavam de escória, ou mesmo de “viadinho saltitante”. Deitado na solidão de seu quarto, após ter entrado escondido em casa, Anderson escondia seu sofrimento, especialmente da mãe, pois assim como era antagonizado na escola pelos outros estudantes, achava que Sueli não fosse entender a diferença existente entre ele e os outros meninos da mesma faixa etária.
Tudo começou no dia em que toda a turma da escola foi levada para assistir um espetáculo teatral e Anderson identificou-se com aquela linguagem artística. Até então, tentara esportes, mas sua fragilidade o impediu de sair-se bem, e o professor de Educação Física o desestimulou. Depois da aula em que apenas assistiu, o professor chamou-o para uma conversa em particular e lhe disse que não precisava empenhar-se, já que não era o que realmente queria.
- O importante é você estar bem com você mesmo, Anderson! – acalmou-o o professor durante a conversa e finalizou dizendo que ele deveria procurar a pedagoga e procurar uma opção que fosse mais adequada à sua personalidade.
O xadrez foi à primeira opção e realmente deu-se bem nos torneios municipais e até mesmo regionais, mas quando viu os atores no palco, especialmente em performances que exigiam conhecimentos de dança e expressão corporal, sua mente como que fez aflorar uma paixão até então desconhecida.
Aquele mesmo grupo de teatro estava escolhendo atores em oficinas ministradas no Centro Cultural local e não se fez de rogado. Em pouco tempo, já fazia parte do elenco de iniciantes e dedicava-se ainda mais aos estudos, tanto na escola, fazendo com que professores o aplaudissem, quanto em livros indicados pelo Diretor do Grupo Teatral.
“Rato de Biblioteca”, “Nerd”, “florzinha do campo”, e outros apelidos semelhantes eram a tônica que os colegas de escola usavam diariamente quando passava por eles, e cada vez mais as agressões tornavam-se acintosas, até que finalmente atingiram o grau de violência física.
O ápice aconteceu naquela tarde, quando os outros colegiais fizeram uma espécie de corredor e quando ele passou, foi agredido por todos os lados, e só o deixaram quando jazia inerte no asfalto diante da Escola.
Ainda ouvia as gargalhadas de escárnio quando a porta do quarto abriu-se e Sueli entrou sorridente como sempre fazia ao receber o filho após a aula. Anderson ainda tentou esconder o rosto, mas sua mãe percebeu que algo não estava bem na forma de agir do filho, e aproximando-se, puxou-o de encontro a si e horrorizada viu as marcas que transfiguravam o rosto dele.
Tocou as marcas como se cada toque pudesse esclarecer a razão delas existirem, enquanto balbuciava palavras de pesar. Os carinhos tiveram o poder de fazer com que Anderson expressasse em palavras todo o ocorrido, como se o aliviasse do peso do mundo sobre si.
Mãe e filho sempre conversavam sobre muitos assuntos, porém o diálogo daquele momento foi o mais esclarecedor havido entre eles, e Anderson abriu-se como nunca o fizera e Sueli pode enfim conhecer o mais íntimo dele, ao mesmo tempo em que dissolvia todos os temores quanto ao julgamento que lhe dedicaria.
O amor incondicional que Sueli lhe dedicava naquele momento fez com que a dor física de Anderson ficasse em segundo plano. Estava sofrendo, mas sua alma estava em paz, pois sentia a acolhida mesmo expondo sua diferença.
Sueli inicialmente procurou cuidar da saúde do filho levando-o imediatamente à um hospital onde seus ferimentos foram devidamente tratados e em seguida, mesmo contestada por Anderson, procurou recorrer, tanto à Polícia quando à Escola procurando por Justiça, e em ambos, frustrou-se.
Os agressores eram menores de idade, e o máximo que lhes aconteceu, foi uma suspensão na Escola e uma refrega do delegado diante de seus pais, que os abraçava consoladoramente enquanto ouviam o sermão.
Agora Anderson não mais entra em casa escondido e o que o aguarda são dois braços amados de Sueli, que o recebem abertos e prontos para consolá-lo das injustiças e preconceitos contra o desconhecido. Cada vez mais sabe que outros braços o acolherão com amor, e que certamente o consolarão de diariamente ouvir aqueles pretensos machões agora o chamarem de “viadinho da mamãe”.

terça-feira, 8 de março de 2011

JADE É PEDRA... PRECIOSA?

Mesmo com apenas o braço direito funcionando como gostaria, após ter sido acometida de um AVC, Maria jamais deixava de escovar os cabelos de sua neta Jade antes de dormir. Era uma prática comum para as duas, conversarem sobre o dia enquanto os cabelos da pequena que estava entrando na adolescência, na flor de seus treze anos, eram escovados incessantemente pela avó que assumira sua criação.
- Porque meu nome é Jade, vó? – indagou repentinamente a pequena.
- Parece que sua mãe ouviu essa palavra quando estava grávida, e soube que era uma pedra preciosa, e assim, como sabia que você seria essa pedra linda e preciosa como tem se mostrado, deu esse nome a você! – respondeu orgulhosamente Maria.
Por pedra preciosa, Maria queria dizer que a neta demonstrava ser forte, mesmo tendo sido criada sem a mãe, e mais ainda, por ser boa estudante e ajudante em todas as tarefas da casa. Também tinha uma educação acima do normal para uma garota de sua idade e nunca havia demonstrado rebeldia.
- Você me dá uma pedra jade no meu aniversário segunda feira, vó? – perguntou a menina de forma ingênua e pura, pois ainda não conhecia o real valor do dinheiro para seus avós que viviam apenas com a aposentadoria minguada do avô.
 - Eu não sei se a gente vai poder filha! – quase gemeu Maria, pois sabia que o único presente que poderia dar à neta era mais uma boneca, que ela colecionava e as deixava em sua cama voltadas com o rosto para a porta, e antes de sair para a escola, jogava beijos em despedida e dizia-lhes para que a esperassem que logo voltasse. – Mas a boneca que queria, com os olhos verdes, pode ter o nome de Jade filha, e essa, nós vamos lhe dar!
- Jura vó? – empolgou-se a pequena, quase pulando e derrubando a escova de cabelos da mão da avó, que divertidamente ralhou com ela dizendo que parasse de bagunça que seus cabelos estavam todos emaranhados.
Na segunda, realmente durante a pequena reunião de amiguinhos entupindo-se com um bolo caseiro e salgadinhos, Jade apresentou a “Jade filha” à todos, com orgulho próprio de uma mãe e fez a inveja de muitas de suas amiguinhas que também gostavam de tais brinquedos.
Assim foi durante alguns dias, sempre colocando Jade filha na frente das outras bonecas em cima da cama e ao sair, dizia que elas não precisavam ficar tristes, pois logo a mamãe estaria de volta.
 Em uma quarta feira, ao entrar no quarto de Jade, Maria percebeu que as bonecas não estavam com a mesma arrumação e sim, deitadas como se com o rosto escondido. Deu-se conta também que naquele dia, Jade mostrava-se diferente, como se algo a estivesse incomodando, e só agora havia percebido.
Um arrepio percorreu o corpo de Maria que decidiu ir à escola esperar pela neta, pois algo não estava normal, nem naquele dia, e também na forma de Jade agir, e pedindo a Deus que a protegesse do que quer que pudesse estar acontecendo, saiu sem ao menos dar-se conta de ter deixado a porta do quarto e de casa abertas.
Cerca de meia quadra antes da Escola de Jade, Maria temeu o que estava vendo, pois uma viatura policial e uma de socorro médico ali estavam e uma multidão aglomerava-se na rua.
- Parece que uma menina levou um tiro! – ouviu uma mulher falando ao passar rapidamente por ela e atirar-se pelo portão sem que a pudessem segurar.
No dia seguinte, os jornais estamparam a noticia de que um garoto, ao mostrar uma arma que levava escondido para a escola, disparara acidentalmente e acertara a cabeça de uma coleguinha, matando-a instantaneamente.
Maria e Antenor não leram os jornais e também preferiram não ligar televisão ou rádio e apenas sentavam no quarto da neta, a avó com a escova de cabelos nas mãos e o avô embalando a Jade filha.
Todas as outras bonecas não olhavam para a porta, pois sabiam que sua amiguinha não mais retornaria, mas estava dessa vez deitadas com os olhos voltados para o céu, como a verem só o que elas poderiam ver.
- A pedra preciosa, a pedra, preciosa! – balbuciou Maria como se estivesse vendo um brilho verde a entrar pela janela no entardecer de mais um dia.

quarta-feira, 2 de março de 2011

CONTRADIÇÃO

Quando ainda na pré adolescência e ouviu a palavra psicopata em uma matéria de televisão, Luciana, sua mente já desenhou a imagem de um homem monstruoso, com dentes pontiagudos e até mesmo semelhantes às figuras demoníacas que por vezes via em revistas em quadrinhos que seu irmão Marcos lia escondido dos pais. Descobrira o esconderijo não tão secreto das revistas em quadrinhos, e as pornográficas do irmão quando foi arrumar sua cama assim que ele saía para a escola pela manhã.
Sentava na cama por alguns minutos e folheava as em quadrinhos de heróis que combatiam aquelas figuras que mostravam toda a maldade nas aparências propositalmente desenhadas para a identificação de quem os olhasse. Heróis e criminosos estavam bem delineados em sua mente pela aparência.
Conforme fazia o serviço de arrumação das camas, sua curiosidade também foi despertada pela outra qualidade de revistas ali escondidas por Marcos e disfarçando ao máximo para não ser flagrada por sua mãe, Luciana passou a ter seus desejos íntimos despertados pelas fotografias e histórias nada educativas estampadas nas páginas que tinham um poder mágico de fazê-la ter pesadelos à noite.
Chegou mesmo a pegar algumas daquelas revistas e mostrar para amiguinhas na escola, onde freqüentava o ensino fundamental após o almoço. Riam nervosamente e faziam piadinhas com o conteúdo das páginas entre si, e também aproveitavam para traçar comparações entre os modelos estampados e seus amiguinhos e amiguinhas, mas jamais confessara o que aquilo fazia intimamente com ela.
Assim passaram-se os anos e Luciana conseguiu manter-se casta e pura até os quinze anos, quando surgiu em seu caminho um rapaz moreno, alto, de porte atlético e possuidor de dois olhos esverdeados que a hipnotizavam. Agora seus sonhos enquanto desperta e pesadelos quando dormia eram tão intensos que ela não mais conseguia dominar-se.
Tudo fez para ser notada por aquele exemplar de beleza masculina que fazia com que os modelos das revistas que lia às escondidas ficassem em segundo plano em seus pensamentos, e assim, em uma festinha de aniversário de uma amiga, foi abordada por Ivan que além de belo, mostrou-lhe uma faceta romântica e carinhosa, além até de seus sonhos mais secretos.
Foi totalmente dominada por aquele homem e tornou-se mulher em todos os sentidos, não tendo pudor em entregar-se à paixão avassaladora que não tinha fim. Era tudo o que mais queria na vida. E ainda por cima, era tratada como toda mulher em seu mais íntimo desejaria. E também invejada pelas amigas.
Foi surpreendida um ano depois, ao saber que Ivan havia sido preso por roubo, juntamente com outros dois amigos.
Tudo fez para poder visitá-lo e até mesmo seus pais a apoiaram em seus desejos, pois presenciavam a forma como Ivan tratava sua filha e nada tinham a opor ao namoro que estava consolidado.
Por ser primário e pela disciplina mostrada dentro do Presídio, mesmo sentenciado, foi beneficiado com remissão de sua pena, uma vez que era o responsável pela alimentação dos outros detentos e após um ano e dois meses, saiu da cadeia e ganhou a liberdade.
Enquanto no presídio, o carinho e o amor de Ivan para com Luciana pareceu ganhar mais força ainda e naquele dia semanal em que ela o visitava, parecia cada vez ser o mais feliz de toda sua existência.
A liberdade de Ivan foi acolhida por Luciana que conversara muito com ele a respeito do acontecido, e a promessa de que não haveria uma segunda vez não deixava duvidas quanto ao cumprimento por parte dele.
Assim transcorreram mais alguns meses de verdadeira paixão de um para com o outro até que, em um sábado, passeando com o amado em posto de combustíveis na Avenida Brasil, local que servia de ponto de encontro de jovens, foi alvo de deboche de outra garota, que no momento estava acompanhada de um rapaz e era perceptível a embriagues de ambos.
Sentiu, mais do que viu, Ivan simplesmente sacar uma arma da cintura e friamente disparar contra o casal sem a menor piedade. Olhou para o namorado e não acreditou no acontecido, pois até então, só conhecia o lado angelical daquele ser que a tratava como a mais amada das mulheres.
Era como se estivesse em um pesadelo que a deixava estática, sem reação alguma. Sua mão direita foi carinhosamente envolvida pela mão de Ivan e ouviu-o dizer que tinham que sair dali para não terem problemas. Foi levada para o carro que usavam e não se apercebia que Ivan ainda mantinha na mão a arma com a qual matara dois jovens.
Ele simplesmente balbuciava ininterruptamente: “A culpa é deles mesmos, quem mandou debochar da minha mulher?!”, até que chegaram a sua casa e ele a mandou entrar, pois ele tinha mais uma coisa a fazer, sem explicar o que.
Parece que sua mente desligou ao ver a porta de casa, pois só tomou consciência de si mesma na manhã seguinte, ao acordar e saber pela mãe, que os fatos vividos por ela eram reais, pois a Polícia estivera ali à procura de Ivan, e que além das duas mortes dos jovens, também havia executado outro rapaz na região do lago.
Alguns dias se passaram sem que Ivan lhe desse sequer um telefonema, e foi um suplicio para Luciana, que precisava ouvir dele as explicações para o que realmente havia lhe acontecido.
Os repórteres, tanto em rádio quanto na televisão, tratavam Ivan como um frio psicopata, e Luciana não conseguia acreditar naquilo, pois até então, tal palavra remetia para seu cérebro a imagem mental de seres horripilantes, e não de um lindo rapaz, de olhos meigos e carinhosos como Ivan.
Depois que ele foi preso e o visitou no final de semana, percebeu que era o mesmo Ivan, que a cobria de carinhos e amor em toda plenitude, já que novamente sentiu-se a mais amada das mulheres.
Procurou informar-se junto a profissionais de psicologia e soube que o seu querido Ivan era o que se denomina psicopata, vagando entre os extremos dos sentimentos, mas jamais assumindo um isoladamente. Que ele amava incondicionalmente da mesma maneira que o fazia com o ódio quando aflorava.
E isso ficou novamente comprovado, quando soube que Ivan havia cometido mais um homicídio no interior do Presídio, degolando completamente a vítima e testemunhas viam que ele sorria com satisfação enquanto o fazia.
Ela jamais acreditaria em histórias em quadrinhos, pois elas traziam os criminosos e psicopatas com uma imagem distorcida. Ela jamais iria conseguir acreditar em uma vida com Ivan, pois assim como foi enganada pelas revistas pornográficas, que em mente foram responsáveis por ter se entregado a ele, sua história também deixou de ter o significado que seus sonhos lhe prometeram.
Se Ivan não conseguia deixar de ser contraditório em seus sentimentos, ela teria que contradizer o próprio CORAÇÃO.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O IMPORTANTE E O COMUM


Se o nome de batismo fosse torná-lo pelo menos tão talentoso quanto seu xará, José Machado de Assis não passaria pela vida apenas observando fatos importantes e no dia seguinte sua memória já os esquecera. Talvez pela constante luta para a sobrevivência própria e de sua família, o Machado de Assim comum só pensava mesmo é na coleta que faria todo dia e em quanto os papelões, plásticos ou outros reciclados lhe renderiam.
Conseguira depois de algum tempo, traçar uma rota diária em que seu carrinho chegava ao final do dia abarrotado e dava-se por feliz pelo peso cada vez maior, tanto para empurrá-lo ladeira acima quanto freá-lo nas descidas. Assim sabia que poderia ganhar mais.
Em um desses dias, quando suas mãos calejadas clamavam dolorosamente por um descanso de alguns minutos pelo menos, e aproveitando o fato de que estava em um local de descida próximo ao clube freqüentado pelos mais ricos da cidade, José deu um tempo, encostando o carrinho próximo da calçada e aproveitou o tempo para comer algumas bolachas de um pacote que achara dentro de uma caixa de papelão, ainda com algumas sobrando.
Sua atenção foi despertada por uma discussão que acontecia entre um casal diante de um prédio de apartamentos luxuosos. Percebeu que o homem que gritava palavrões estava trajando roupas sociais, mas notadamente era o porteiro do edifício.
O homem a chamava de louca, e a mulher respondia que louco era ele que usava as próprias filhas como se fossem suas mulheres na cama.
José não acreditava que estava ouvindo aquilo, pois nada o faria crer que um pai pudesse ter coragem de praticar atos tão vis com suas próprias filhas. Chegou mesmo a acreditar que a mulher fosse mesmo louca, pois se não, teria denunciado o marido e ele não estaria solto nas ruas e também as meninas não estariam sendo submetidas à tamanha humilhação pelo próprio pai.
Machado de Assis, o escritor, não perderia a chance de colocar uma história como essa no papel e com certeza teria relevância perante a sociedade, mas o Machado de Assis que esquecia o que lhe traumatizava a cada noite de sono, nunca mais quis pensar sobre o assunto, porém procurou passar por outra rua por longo tempo, a fim de afastar-se daquele monstro travestido de educado porteiro.
Por vezes a frase: “eu só brinco com elas”, proferida em tom irônico e hipócrita pelo homem que discutia com a mulher aflorava à sua mente, mas rapidamente ele afastava os pensamentos e as lembranças.
Muito tempo depois, com o esquecimento total do que presenciara, José Machado de Assis, apelidado pelos amigos de “deixa que eu chuto”, voltou a coletar recicláveis na frente daquele edifício e por vezes, até cumprimentava o porteiro, que o olhava com desdém próprio dos que se sentem mais importantes que outros.
Assim, o próprio catador de papelão recolhia, não só o que pudesse ajudá-lo a sustentar a família, mas também se recolhia ao que julgava ser sua insignificância por sentir-se menos importante que aquele homem vestido de forma elegante e que partilhava de uma vida saudável junto aos moradores do elegante edifício.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

SOZINHA NA TEMPESTADE

Logo ao raiar do dia, José Machado de Assis, também conhecido pelos amigos por “deixa que eu chuto”, por mancar de uma perna, acordava, pegava seu carrinho onde recolhia material reciclável e saía, sem ao menos um gole de café.
Naquela manhã fria não foi diferente, e logo em uma de suas primeiras coletas, diante de um prédio suntuoso localizado na Rua Minas Gerais, deu graças a Deus pela sorte, pois havia um monte de papelão de caixas desmontadas, possivelmente de uma mudança realizada no dia anterior e ainda encontrou uma bicicleta “tico-tico”, com apenas uma roda rachada. Novamente bendisse sua sorte, pois dentro de três dias seu filho caçula Michael Jackson da Silva, faria aniversário e ali estava o presente. Imaginava o pequeno brincando com aquela bicicletinha diante de seu casebre e riu por dentro.
Enquanto separava o material e ajeitava no carrinho que até o final da tarde ficaria abarrotado, viu uma moça cambaleante sair do prédio, com os cabelos desgrenhados e as roupas rasgadas. Percebeu também que ela estava com hematomas no rosto e chorava. Apesar de ter um nome famoso, conforme lhe disseram quando menino, não tinha talento para escritor, sem contar também que aprendera com a vida nas ruas, que não devia envolver-se em problemas alheios. Procurou esquecer a cena presenciada, mas durante o dia, a imagem da moça não lhe saía da cabeça, mesmo sem saber o  pesadelo que ela vivera durante toda a noite, no interior de um apartamento luxuoso, mas que fora sua câmara de tortura.
 Na noite anterior, Patrícia que já estava fazendo o trabalho de levar pacotes encomendados de um lugar a outro, recebeu a incumbência de transportar algo que não sabia o que continha, ao prédio luxuoso. Como costumeiramente fazia, pegou um moto taxi e fez o trajeto pensando no dinheiro que ganharia e que serviria para ajudar seu namorado Marcos na Cadeia.
Ao chegar ao local, o porteiro disse-lhe que haviam pedido que subisse com o pacote até o apartamento. Era algo inédito para ela, mas não se fez de rogada e pegou o elevador. Ao chegar à porta, foi recebida por um jovem rapaz de aparência agradável que a convidou para entrar.
No interior do apartamento, outros três rapazes estavam sentados em um sofá na sala espaçosa e o que a recepcionou, tomou o pacote de suas mãos afoitamente e abriu-o em uma mesa de centro com tampo de vidro, sendo rodeado rapidamente pelos outros jovens que davam vivas para o conteúdo.
Era a primeira vez que Patrícia via o conteúdo de suas entregas e ao ouvi-los, soube que era cocaína da pura. Falou quase que de chofre, que se eles a pagassem pela mercadoria, ela iria embora, pois tinha mais entregas a fazer.
- Nada disso lindinha! – falou o que a recebeu à porta, virando-se para ela. – Vamos fazer uma festinha todos nós! E você vai participar!
- Eu não faço isso moço, não uso drogas! – respondeu quase sem perceber.
- Sempre tem a primeira vez menina! – riu outro rapaz que se levantou e a pegou pelo braço brutalmente. – E não só isso! Vai nos deixar na mão depois de a gente usar esse produto de primeira que com certeza vai deixar a gente doidão?
- Eu tenho outras entregas a fazer moço! – falou Patrícia tentando desvencilhar-se da mão que a apertava próximo ao cotovelo, enquanto os outros se levantavam e a rodeavam e já a bolinavam.
- Aqui é assim menina, e seu patrão já está sabendo que a gente vai se divertir contigo e você vai se divertir com a gente! – falou o que a recebera à porta, bem próximo ao seu ouvido enquanto passava as mãos por seu ventre.
- Ou acha que ele mandou você, que é garota de programa, por quê? – falou asperamente outro dos rapazes – O serviço completo está incluído no preço que combinamos!
Patrícia já se sentia impotente diante daqueles quatro rapazes que repentinamente lhe pareciam animais descontrolados e tentou conversar, mas não lhe davam ouvidos. Era manipulada de todas as formas por três dos rapazes enquanto o quarto preparava as carreiras de cocaína no tampo da mesa de centro. Quando foram avisados que o produto estava pronto para ser usado, os rapazes exigiram que ela fosse a primeira a cheirar e enquanto ela o fazia, ajoelhada no chão, com um tubo colocado na narina, percebeu que todos os olhares observavam se ela realmente estava fazendo o certo.
Recebeu como que uma pancada na cabeça ao aspirar aquele pó branco e antes mesmo que pudesse respirar ar puro, colocaram um copo de uísque em sua boca e a fizeram engolir. Sentiu que parte do liquido escorreu por seu queixo, mas foi a ultima sensação consciente. Mergulhou em uma névoa que lhe dava a sensação de estar voando e não mais sentiu as carícias que até aquele momento a incomodavam.
Foi usada pelos quatro rapazes que se revezavam em sua boca, costas e entre suas pernas como se fosse uma boneca inanimada, ouvindo os risos e palavrões que proferiam, sem, contudo atinar para o significado daquilo.
Não sabe quanto tempo durou o suplicio e apenas tomou consciência, quando os primeiros raios de sol incidiram pela janela. Tocou o próprio rosto e sentiu-o inchado e dolorido, e vagamente lembrou-se de ter sido espancada e estapeada pelos rapazes enquanto gargalhavam. Seu corpo estava como que esmagado por um torno, e em cada local que colocava as mãos, gemidos de dor saíam de sua boca incontrolavelmente.
Levantou-se e procurou suas roupas rasgadas espalhadas pela sala, onde os quatro rapazes dormiam no chão, como corpos inertes, e procurou vestir-se rapidamente para sair daquele local o mais rápido possível, mas a cada movimento, lágrimas de dor afluíam de seus olhos.
- Se gostou pode voltar, mas se não gostou, pode procurar os merdas da polícia, pois meu pai é rico e manda em todos eles! – Patrícia ouviu o rapaz que a recepcionara e ao olhar para o lugar de onde provinha a voz debochada, viu que ele nem mesmo se dignava a levantar, mas continuava deitado e apenas seus olhos estavam abertos. – Ah, a porta está aberta, quando sair, feche devagar para não fazer barulho, que eu estou com dor de cabeça! – terminou o rapaz com uma gargalhada debochada.
Saiu do apartamento e enquanto descia pelo elevador, Patrícia chegou mesmo a pensar em denunciar o acontecido, mas ela própria demoveu-se da idéia, pois o que iria dizer? “Que uma garota de programa foi fazer uma entrega de drogas e foi brutalmente espancada e estuprada por três filhinhos de papai?”
Com certeza ririam dela. A ultima frase do rapaz bailava em sua mente enquanto ganhava a rua afastando-se daquele prédio luxuoso, mas que para ela era o castelo do horror, e tentava situar-se para encontrar o melhor caminho para chegar até sua casa e nem ao menos percebeu um homem que recolhia papelões diante do prédio.
Os três próximos dias foi um suplício para Patrícia, pois suas necessidades fisiológicas lhe causavam verdadeiras torturas. Seu estomago já não tinha mais nada para eliminar, mas continuava a sentir ânsias o tempo todo. Passou todo aquele tempo tomando analgésicos na tentativa de amenizar as dores, e quando o fazia, seu estomago não aceitava o remédio e nem mesmo a água ingerida, devolvendo tudo.
Pensou diversas vezes em procurar forma de punição para os rapazes, mas sempre percebia o absurdo de tais pensamentos.
Só muito tempo depois, sou que se o fizesse, poderia ter mudado o destino de outra vítima inocente de um daqueles rapazes, exatamente o mais irônico de todos.
Soube que em uma de suas irresponsabilidades, o rapaz que era filho de um industrial madeireiro, ao fazer o que se chama de “roleta paulista”, que é dirigir em alta velocidade por ruas não preferenciais, bateu em outro carro e o condutor do veículo por ele abalroado faleceu no local.
Soube que a vítima em questão era um rapaz de sobrenome Rotta e realmente percebeu que se denunciasse seu agressor, ele não seria punido, pois mesmo diante do absurdo que praticara, ao tirar a vida de um inocente, continuou impune.
Ela enfrentou a tempestade dos filhinhos de papai que cada vez mais podem praticar o impraticável sem temor de represálias, e mesmo como garota de programa e até mesmo avião de traficantes, não fugiu de pagar por suas responsabilidades e procurará uma nova chance de vida, custe o que custar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Um caso estranho

Se a vida era um pesadelo para Patrícia, o que ela vivia enquanto dormia era ainda mais, pois toda noite enquanto dormia, fazia o trajeto de sua casa até aquele gramado embaixo do pé de Sinamão, onde sobraçava sua mochila com as poucas roupas e ficava com o olhar perdido enquanto um torvelinho de pensamentos açoitava sua mente.
Flashes de sua mãe dentro do caixão mesclavam-se com a voz entoando canções de ninar e a voz de Pedro dizendo-lhe que deveria ir embora, pois daquele dia em diante seria apenas um estorvo prá ele, eram substituídas por lembranças de um dia em que tropeçou em uma sacola contendo um vestido infantil na sala da casa onde morava, e pode vislumbrar que a peça de roupa estava manchada.
Gritos infantis oriundos da escola do outro lado da rua eram como sons de fundo para a voz do padrasto chamando-a de desastrada enquanto recolhia a sacola e enfiava o conteúdo com vigor, de forma a que ela não pudesse identificar bem o que era.
- Além de não ser boazinha e brincar gostoso com este homem que te dá comida, casa e tudo o que precisa, ainda vai querer estragar meus brinquedos? – relembrou Patrícia a frase proferida por Pedro em tom irritado.
Ela não tinha a menor noção do que aquele homem falava, pois não soubera que dias antes a Polícia havia encontrado uma garotinha totalmente despida e morta com requintes de crueldade sexual e até então, não tinham pista do homicida. Era uma frase que a incomodava, mas não sabia seu real significado.
Por brincadeira, Patrícia sabia que Pedro lhe pedia para tomar banho sempre que sua mãe não estava em casa, e algumas vezes lhe oferecia ajuda para ensaboá-la. E enquanto o fazia, dizia que estava brincando com ela. Com o decorrer do tempo, ela foi ficando incomodada e quando ia tomar banho, negava o pedido dele e trancava a porta do banheiro, mas percebia que ele a espiava pelo buraco da fechadura.
Todos esses pensamentos estavam vívidos em seus pesadelos noturnos, que só tinham fim quando novamente ouvia a voz de Tânia perguntando se ela estava matando aula. Aí acordava e via a amiga que a recolheu quando foi expulsa de casa, na cama ao lado e permitia-se até mesmo ter um pouco de paz.
Não sabia Patrícia, que aquele que a expulsou por saber que ela nunca ia querer brincar com ele, anos depois seria responsável por mais um crime brutal semelhante ao que praticara no passado e identificado, encontrara uma recepção digna em meio aos marginais. Dois dias após sua prisão, foi encontrado em sua cela, enforcado com um fio de luz. A perícia atestou que antes de morrer, Pedro havia tomado quase um litro de água fervente, e seus pés estavam totalmente queimados, bem como suas mãos. Oficialmente o suicídio foi testemunhado por todos os presos daquela Cadeia.
Esses pesadelos de Patrícia sumiram com o tempo, mas outros apareceram, porém nem sempre enquanto ela dormia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Capítulo quinze... “O inesperado onde menos se imagina...”

Durante o jantar, Patrícia continuava discorrendo sobre suas aventuras para aquele que seria seu “ghost writer”, ou em português “escritor fantasma”. Falava o tempo todo, contando como viveu aquele poucos, porém repletos de altos e baixos, anos em que seu corpo foi usado por homens, mulheres e até mesmo casais que diziam querer “apimentar” a relação.
Com certeza renderia um romance, mas o escritor disse-lhe faria alguns capítulos apenas de um romance não muito aprofundado e depois sim, escreveria contos sobre o que ela lhe contara com temas e relatos mais apurados e melhor elaborados.
O capítulo final desse pequeno romance, no entanto, seria além de seu encontro inesperado, também a sua redenção para uma nova vida.
O inesperado aconteceu exatamente quando Patrícia estava presa na Cadeia Pública e em uma noite chuvosa, viu descer pelo corredor uma mulher de cerca de 30 anos, mas que naquele momento mostrava mais idade, devido ao abatimento psicológico de ter sido presa. O nome dela era Elisa, de nacionalidade paraguaia, e que foi flagrada trazendo materiais de informática de forma ilegal. O tradicional contrabando.
Patrícia foi à encarregada de recepcioná-la, ainda sem saber o motivo que a levava até ali, e levando-a para sua cela, soube que a mulher era proprietária de uma pequena loja comercial no país vizinho e por vezes fazia o transporte de tais mercadorias e os entregava na cidade de sua prisão. Tentou consolá-la dizendo que em tais casos, dois ou três seriam suficientes para que recebesse o Alvará de Liberdade Provisória, mas a mulher mostrava-se tensa e nervosa com o acontecido.
A aproximação de ambas foi consolidando-se conforme conversavam, e Patrícia teve a primeira surpresa ao sentir-se acariciada de forma cada vez mais intima por Elisa. Já tivera experiências anteriores com mulheres, pois durante o período de garota de programa, muitas vezes foi levada por casais ou mesmo por algumas socialytes para festas intimas e não lhe eram desagradáveis os carinhos femininos.
Permitiu-se ser acariciada e beijada e percebeu que Elisa aos poucos ia relaxando conforme o relacionamento tornava-se mais profundo. Inicialmente Patrícia acreditou que seria apenas mais uma noite de sexo prazeroso, mas no dia seguinte, ambas sentiram-se mais próximas e até mesmo entristeceram-se ao chegar o Alvará de Soltura de Elisa dois dias depois.
Ao se despedirem, Elisa disse-lhe que a procurasse em sua loja assim que saísse e entregou-lhe um cartão de visitas com o endereço e telefone de contato.
Devido ao local não ser organizado, Patrícia perdeu o cartão e ao sair, pediu ao escritor que lhe conseguisse formas de localizar Elisa, pois sabia que era uma alternativa prá uma mudança de vida.
E foi exatamente essa informação que recebeu naquela noite durante o jantar e no dia seguinte, com dinheiro emprestado do amigo em questão, foi em direção à única alternativa de nova vida que lhe surgiu, sendo surpreendida por encontrar o que tanto esperava dentro de uma cadeia.
Três anos depois desse jantar, Patrícia recebeu a visita do amigo na loja de Elisa e pode mostrar toda a felicidade que a nova vida lhe reservada, pois além de estar estudando e profissionalizando-se como comerciante, também finalmente encontrara o amor verdadeiro.
De resto sabia que suas memórias renderiam ao amigo, não só um romance que mostraria sua redenção, mas também muitas histórias que seriam transformadas em contos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capítulo quatorze... “Memória curta... memória longa...”

Patrícia apenas recordou dos momentos vividos com o empresário em questão ao vê-lo novamente passar por ela no local onde costumava aguardar os clientes. Um outro carro ainda mais luxuoso, na cor amarela e que tinha linhas esportivas. Não saberia dizer a marca ou mesmo se era de indústria brasileira ou importado, mas pegou-se imaginando passear naquela máquina, mesmo que para isso não cobrasse pelo programa.
Sete anos haviam se passado, mas em sua memória, o semblante daquele homem estava indelevelmente impregnado, como que uma gravura, pois nos cinco encontros que tivera com ele praticara todas as artes da satisfação masculina em sua plenitude, ensinadas teoricamente por Ivone, jamais o esquecera, mas não de forma positiva e sim, como de um instrumento de tortura.
Teve febre, náuseas e desarranjos intestinais por três dias consecutivos após o segundo encontro em que foi manipulada e penetrada por aquele homem que a fixava com olhar bestial e dominador, enquanto a ouvia gemer. Comparou aquele rosto com o de uma gravura de vampiro em um livro que sua amiga Mari folheava de vez em quando na sala e logo após o abandonava sobre o sofá.
Ele era o vampiro de Patrícia, pois sugou até mesmo sua alma, a qual jamais deixou de ser atormentada nas noites seqüentes a todos os encontros.
Ao vê-lo naquele dia, Patrícia até mesmo desejou ser novamente procurada por ele, por simples ingenuidade, pois aquele homem jamais se permitia exposição e mais ainda, usar mulheres como ela, que já não mais eram jovens, puras e virgens.
Ansiava por um programa, pois sabia que teria que pagar o hotel e o jantar daquele dia e não podia dar-se ao luxo de escolher clientes. Lembrou-se que no livro que lia enquanto estava na cadeia e que agora era seu companheiro no pequeno quartinho nos fundos do hotel simplório que vivia, havia uma prostituta que dizia preferir carros com cadeirinhas de criança no banco traseiro, pois seriam homens de família que apenas queriam uma aventura extraconjugal com discrição e rapidez. E também não regateavam o preço.
Mentalmente desejou que um desses passasse por ela, virasse a esquina e estacionasse em um local onde não seria visto pelos motoristas dos outros carros que trafegavam por aquela avenida, pois assim, tanto seu jantar quanto a diária do hotel estariam garantidos.
Um carro fez menção de estacionar perto dela e ao observar o motorista, Patrícia foi surpreendida, pois ouviu a frase conhecida do seu amigo escritor.
- Se prometer que não vai se aproveitar de um pobre indefeso, virgem e puro, eu deixo você entrar? – seguido de uma agradável gargalhada.
- Eu não prometo nada! – exclamou Patrícia acompanhando a brincadeira do homem que se tornou seu amigo no lugar menos improvável possível e já entrando no carro sem mesmo esperar convite.
- Que está fazendo aqui menina linda? – perguntou ele, como que ingenuamente.
- Estava esperando meu namorado que acabou de chegar! – respondeu ela.
- Ih... Então é melhor eu ir embora que não quero apanhar! – defendeu-se ele.
- Meu namorado é você seu bobo! – exclamou ela enquanto se aproximava e o beijava no rosto.
- E ninguém me avisa, pô! – brincou.
- É só dizer o que vai querer que eu estou pronta meu amor! – riu Patrícia.
- A única coisa que quero agora, é banho, janta e cama... Sozinho!
- Ainda com essa frescura de achar que se eu transar com você, estou fazendo sacrifício? – perguntou Patrícia que pela primeira vez na vida havia encontrado um homem que conversava com ela, a ouvia, e que não a queria como mulher.
- Eu vim aqui prá te dizer que acho que consegui aquela informação que me pediu! – falou ele como se não tivesse ouvido a frase dela – E também pra te convidar prá jantar, se quiser! Depois de deixo onde quiser!
- Eu quero jantar, mas depois tenho que voltar, pois preciso arrumar dinheiro prá pagar o quarto hoje! – exclamou Patrícia mesclando alegria por conseguir uma informação que a poderia tirar daquela vida e tristeza por saber que naquele momento, sua realidade ainda exigia que continuasse a ser o que era.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Capítulo treze... “O momento da verdade!”


No momento em que estava sendo abraçada por aquele homem inicialmente elegante que a levara a um apartamento luxuoso a bordo de um carro grande e preto, cujo modelo nunca havia visto, a não ser em filmes, Patrícia começou a tomar ciência do que era realmente ser prostituta.
Preparada teoricamente para o que lhe aconteceria, Patrícia não estava, contudo pronta psicológica e fisiologicamente para o que se seguiria, pois nem sua primeira menstruação ainda tivera.
Sua mente era um turbilhão de emoções desencontradas ao sentir-se afagada por mãos desconhecidas, que mesmo bem tratadas com esmero por manicures, lhe causavam asco.
- “Ele gosta que as meninas mostrem que estão gostando do que estão recebendo e também que aceitem fazer o que ele quer!” – parecia-lhe ouvir a voz de Ivone – “E se souber agir de acordo, ganhará presentes na despedida!”.
Tais recordações das palavras de Ivone foram substituídas por outras proferidas pelo homem que sabia ser milionário e que não se importava de pagar altos preços por jovens como ela, após desnudá-la e afastar-se para ter uma melhor visão de seu corpo.
- “Parece que você vale o quanto recebe menina!” – ouviu Patrícia aquela voz que jamais esqueceria, pois tinha um tom sibilante como se imagina tenha uma cobra. – “É digna de ser tratada com muita paciência, e vou te dizer, hoje a gente só vai ficar nas preliminares!”
Por preliminares, Patrícia soube que apenas seu sexo não seria invadido, mas durante a imersão de ambos em uma banheira, nem um só centímetro de seu corpo deixou de ser manipulado intensamente e pela primeira vez, sentiu o gosto acre do hormônio masculino.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, ouviu mentalmente Patrícia, porém dessa vez, parecia que a frase perdia o sentido como quando entoada por sua mãe no passado, sendo substituído por uma incrível necessidade de que aquele momento deixasse de existir, tanto no presente, quando no futuro.
Não sabia, no entanto, que seus momentos seriam nada mais nada menos que uma repetição por muito tempo em sua vida.
Procurou bloquear aquelas sensações negativas que teimavam a açoitar seu corpo e mente durante todas as noites seguintes, mas, talvez por ingenuidade ou mesmo falta de alternativas, não podia fugir do pesadelo em vida que o cotidiano lhe apresentaria.
Haveria um segundo encontro, talvez um terceiro e não sabia quantos mais. A única coisa que sabia é que não poderia decepcionar Ivone, já que a sua segurança dentro daquela casa dependia de tornar-se uma cortesã como as outras três amigas que, mesmo a tratando sempre com ironia, a olhavam como se a uma pobre indefesa ou futura solitária.
Claro que aos doze anos de idade Patrícia não sabia disso e só soube tempos depois, ao perceber que tanto a insegurança quanto a solidão lhe seriam companheiras constantes, mesmo que dentro de um quarto quanto em uma multidão.
Afastava os sentimentos negativos e procurava prestar atenção nas palavras de Ivone ilustrando-a na melhor forma de agir no segundo encontro com o tal empresário, e contraditoriamente ansiava e assustava-se com o momento, sentindo-se como se na iminência de se afogar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Capítulo doze... “As terríveis memórias podem ser eternizadas”


Os dias que Patrícia passava nas ruas, por incrível que possa parecer para quem não conhece a realidade de quem não tem horizonte, era um emaranhado de sensações e sentimentos e o tempo todo, os dias de Cadeia afloravam-lhe à mente.
Lembrava-se especialmente de ter conhecido um presidiários que prestava serviços na Secretaria da Carceragem, o qual mostrava um bom humor acima do normal, mesmo naquela situação constrangedora. Toda manhã ele descia o corredor que levava até o quadrante que separava a ala masculina da feminina anunciando sua presença com piadas sobre sua beleza varonil, dizendo que sabia ser impossível a todas não se apaixonar por ele. E isso porque nada tinha de beleza, mas sim, uma simpatia a toda prova, tanto que até os homens recolhidos à prisão divertiam-se com as piadas dirigidas às mulheres.
Conversara todos os dias com ele, especialmente após o horário de expediente, quando o homem sentava-se em um sofá improvisado colocado perto da grade das celas femininas e era rodeado por todas as presidiárias que ouviam e dissertar sobre seus processos e explicava os pormenores dos casos jurídicos que as levaram até aquele lugar.
Patrícia sentia grande aproximação por ele, pois até então fora o único homem que não demonstrara querer seus préstimos sexuais. Sua confiança naquele homem foi crescendo e um dia, ao mostrar-lhe o livro que era seu companheiro constante, cuja história a fascinava por ter semelhança com sua própria vida, soube que ele também escrevia e pediu-lhe que então fizesse um livro com suas histórias.
Assim Patrícia começou a contar os detalhes de sua vida e soube que caso ele escrevesse um romance com tais histórias, seria na realidade uma biografia sua ou então um livro de memórias.
Começou contando a respeito da morte de sua mãe e da lembrança da musica que ela vivia cantando e ao entoar a frase: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”, ele continuou a letra que não conhecia e que dizia: “Onde eu possa encontrar a natureza, alegria e felicidade com certeza...”
Patrícia perguntou-lhe se seria possível lhe conseguir o cd da musica e soube que era cantada pelo rei da musica brasileira, Roberto Carlos. No dia seguinte, pode ouvir todo o cd que ganhou de presente do seu amigo e escritor, que lhe disse que iria presenteá-la, mas só se ela permitisse que ele divulgasse suas memórias, até mesmo para alertar jovens quanto ao envolvimento com drogas e prostituição, e não se fez de rogada, cada vez mais abrindo suas memórias, procurando dar vazão aos sentimentos e mágoas há tanto adormecidas.
As histórias de Patrícia seriam escritas e com certeza muitos dos envolvidos nelas poderiam dar-se conta de que não usaram apenas um corpo, mas que dentro daquele corpo também havia um ser que jamais deixaria de entoar: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Capítulo onze... "Porta para a liberdade?"

Só tomou consciência de sua verdadeira condição, no sábado seguinte, ao procurar por Marcos e ser totalmente ignorada. Viu-se diante de mais uma decepção em sua vida já plena de frustrações.
As lembranças do passado assombravam apenas o inconsciente de Patrícia, pois a realidade que se apresentava era tão ou mais assustadora, pois a liberdade recém conseguida não lhe parecia em nada com o que sonhara enquanto presa.
Naquele momento, a única realidade que sentia era o liquido viscoso em sua garganta, que, ao mesmo em que tempo que a enojava, mostrava-lhe o final da situação presente, em que a sobrevida exigia fosse aceita passivamente. Ao sair da cadeia, foi indagada de o porquê não encontrar um trabalho alternativo naquela ou em outra cidade e não mais fazer “ponto” na avenida disputando os melhores lugares com outras em igual situação.
- Porque na minha situação, qualquer pessoa fecharia a porta na minha cara! – rebateu mais que respondeu Patrícia diante da pergunta a si dirigida e emendou – Eu só poderia trabalhar de doméstica ou diarista! E quem daria emprego para uma moça que acaba de sair da cadeia depois de ter sido condenada por tráfico de drogas?
Quem lhe dirigiu a pergunta foi um dos agentes de carceragem, que diante da resposta amargurada, baixou os olhos como que a procurar alguma alternativa e em seguida espalmou as mãos demonstrando total falta de alternativas.
- Se souber de alguém que me acolha em sua casa, mesmo que também me use como prostituta particular, eu até agradeceria! – ironizou Patrícia e continuou em tom mais resignado – Hoje, por exemplo, se não conseguir um programa, não tenho onde possa dormir ou comer!
A realidade abateu-se sobre todos os que presenciavam Patrícia assinar o seu Alvará de Soltura, documento que a restituía à liberdade, e fizeram uma “vaquinha” a fim de dar-lhe algum dinheiro suficiente para pelo menos aquela noite, sabendo, no entanto, que o dia seguinte não reservava alternativa a ela.
Subindo a rampa que a levava até a rua e apenas com uma mochila contendo algumas poucas peças de roupas, um sabonete, pente e creme dental, além de um livro que tivera como companhia constante nos dois anos e dois meses que passara na cadeia e que agora também servia como cofre do seu documento de soltura cuidadosamente dobrado entre suas páginas, Patrícia parou sem saber qual rumo tomaria. Tanto fazia dirigir-se para a direita ou esquerda, pois seu horizonte jamais abrangeria mais que alguns poucos metros.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – entoou quase sem perceber que o fazia enquanto seguia pela rua que a levaria para o centro da cidade.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Capítulo dez... "Do paraíso ao inferno!"

Em uma das vezes em que fazia a coleta de um pacote para levar a outro endereço, Patrícia foi surpreendida com duas viaturas da Policia que rapidamente a cercararam. Flagrada com algumas pedras de crack, foi levada para a Delegacia e sabia que muito tempo se passaria até que pudesse novamente andar com liberdade pelas ruas da cidade. A única coisa que a consolava, era saber que naquele presídio onde homens e mulheres eram reclusos, todos os dias poderia ver Marcos de uma distancia de cerca de cinco metros por entre as grades e ainda privar com ele aos sábados, dia em que as galerias eram abertas e podiam circular por ambas.
Inicialmente foi recebida com cordialidade pelas outras detentas, mas a realidade lhe caiu como um raio na mesma noite, ao perceber que mal teria onde encostar-se para dormir. Espremida junto a outras quarenta e quatro prisioneiras em dois cubículos planejados para abrigar oito, Patrícia deu-se ainda que apenas contava com a roupa do corpo, sem material de higiene ou mesmo substitutas para as que usava. Não tinha colchão, travesseiro ou mesmo cobertas, encostada em uma parede de concreto frio.
Lágrimas afloraram quando também percebeu que Marcos não lhe dava a atenção que imaginava ser merecedora. Não queria culpá-lo por estar naquele lugar, pois sabia que o que fazia não era legal, mas inconsciente o fazia, especialmente depois de ter a certeza que ele lhe abandonaria.
“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – novamente aflorava à sua mente quando olhava para as paredes apinhadas de roupas precariamente dependuradas, como que a consolar. Seu mundo deixou de interessar a quem quer que fosse, pois naquele lugar, todos estão muito concentrados em si mesmos para interessar-se por outros que não seu próprio futuro. Suas companheiras de infortúnio falavam sem parar do que lhes havia acontecido e ela aprendeu a falar do seu também, apenas para extravasar a sensação de aperto no peito.
Procurava por horas visualizar a galeria masculina na tentativa de pelo menos receber um olhar de Marcos, mas este nem se dava ao trabalho de aparecer em algum lugar visível a ela. Algumas roupas lhe foram cedidas por companheiras, bem como material de higiene e aprendeu que ali dentro, todos tinham que ter certa solidariedade uma para com a outra. Aprendeu também que em uma cadeia havia leis próprias e que para sua sobrevivência, deveria adaptar-se a elas. Se bem que para adaptação a qualquer situação, ela não tinha nenhuma dificuldade, mesmo que isso significasse a morte de seu próprio eu.

Capitulo nove... "Aos cães !"

Não sabia se ficava frustrada, decepcionada ou brava por estar ouvindo isso do homem a quem dedicava tanto amor, mas ao mesmo tempo resignava-se, pois não estaria fazendo ali dentro, diferente do que fazia lá fora. Baixou a cabeça e mordeu os lábios, aquiescendo com o pedido e naquele sábado foi visitada por outros três detentos desconhecidos, que apenas a usavam e saiam, sem ao menos pronunciar uma só palavra.
Um mês de passou desde esse dia e novamente Marcos mostrou-se ainda mais nervoso. Disse-lhe que precisava ainda que ela fizesse outras coisas para os detentos, além do que já estava fazendo, pois o ameaçavam o tempo todo e ele estava com medo de ser morto. Explicou a ela que eles precisavam de alguém que lhes fizessem algum “adianto” nas ruas e ela poderia ajudá-los.
Ficou sabendo que o que queriam era alguém para fazer alguns serviços de coleta e entrega e que ela seria paga prá isso. Apenas teria que ir a determinado endereço buscar alguns pacotes e levá-los a outro lugar que lhe seria indicado. E que a cada serviço, lhe pagariam o transporte e mais algum dinheiro e que seria suficiente para que ela não mais fizesse ponto na Avenida, como estava fazendo até aquele dia.
O pedido também mostrou a Patrícia que o que fazia para conseguir dinheiro, não era segredo para Marcos. Assim, aceitou a incumbência durante um tempo e realmente não precisava mais entregar-se a homens desconhecidos, pois o que ganhava era o mais que o dobro do que ganhava nas ruas. Até conseguiu comprar um bolo confeitado para comemorar seu aniversário de dezoito anos e presenteou a si mesmo com algumas roupas um pouco melhores dos que usava até então. Foi a primeira vez que conseguira fazer tal coisa, pois o que ganhava nos meses anteriores, gastava com Marcos, satisfazendo-se com a expressão de alegria dele.
Marcos fora condenado e a maior de suas preocupações era a possibilidade de ser transferido para o Sistema Penitenciário, uma vez que outros que já haviam cumprido pena naqueles locais, falavam dos horrores que os esperavam, mas quanto a isso, nem Patrícia ou ele poderiam fazer nada. Procuravam viver os momentos cada vez mais escassos aos sábados, pois ela também tinha que cumprir a missão para com os outros detentos.

Capítulo oito... "A porta do inferno!"

Finalmente pode fazer companhia a parentes e esposas dos prisioneiros na fila formada em frente da Cadeia Pública local, tendo às mãos os documentos que lhe permitiam visitá-lo e uma sacola com salgadinhos e refrigerante, que sabia ele gostava. Algumas peças de roupa e bilhetes amorosos havia conseguido enviar durante as semanas que se passaram até aquele sábado frio. Sabia que a presença de Marcos aqueceria, não só seu corpo, mas também seu coração, não importando onde ele estivesse.
A revista corporal obrigatória aos visitantes dos detentos surpreendeu Patrícia, pois ela desconhecia o mundo do crime e não tinha a menor noção de que muitos tentam levar objetos e materiais proibidos para o interior da prisão. Apesar de viver entre os dois mundos, nunca se importou com quem tinha como cliente e mais surpresa ainda ficou, ao encontrar clientes reclusos junto a Marcos. Do mundo empresarial e de encontros na rua com clientes passeando com a família, Patrícia já estava acostumada e ignorava-os, pois sabia que poderia lhes causar dissabores ao demonstrar conhecê-la.
Marcos a aguardava ansioso diante de uma porta de grades, e o que viu em seus olhos fez com que todo o esforço e sacrifício feito por ela, para estar junto dele, valesse a pena. Era a expressão do amor em toda sua plenitude e deu-se sorrindo e chorando ao mesmo tempo enquanto aninhava-se em seus braços e sentia o sabor de seus lábios.
Jamais conseguiria descrever as horas passadas junto a Marcos, já que era um turbilhão de emoções desencontradas. Riam e choravam, conversavam e se amavam, mergulhavam em si mesmos ao mesmo tempo em que compartilhavam com outros detentos e parentes as agruras e sacrifícios. Ele não perguntava, talvez por medo de ouvir a resposta que sabia em seu inconsciente que iria ouvir e ela não lhe dizia onde conseguia o dinheiro para enviar-lhe diariamente salgadinhos, refrigerantes e materiais de higiene. Ele percebia que algumas vezes ela baixava os olhos quando alguns rapazes passavam diante deles e ela também sentiu seu amado ansioso e tenso em diversas ocasiões. Preferiam ignorar o que lhes pudesse causar situações negativas nas poucas horas semanais que passavam juntos aos sábados.
Até que em um desses dias em que apenas permitiam o amor, Marcos mostrou-se ainda mais tenso e nervoso e disse-lhe que precisava que ela o ajudasse, sob pena de sofrer os horrores nas mãos dos outros presos. A realidade de sua vida de garota de programa caiu-lhe em cima e Marcos disse que estava sendo ameaçado por alguns detentos que não tinham visita e que estavam precisando de mulher e que ela poderia fazer-lhes companhia por alguns minutos enquanto ele passeava pelo pátio.

Capítulo sete... "De um mundo a outro!"

Gradativamente foi perdendo-os e Ivone percebeu que algo não estava bem, e ao dar vazão a carência do ser amado, fugia para encontrá-lo às escondidas. Em um desses dias, foi seguida por Ivone, que ao descobrir o motivo de sua criatura deixar de ser lucrativa, não se fez de rogada.
Patrícia novamente viu-se na rua, apenas com suas roupas do dia a dia, pois até mesmo as que usava nas noites de cortesã lhe foram tiradas. Restava-lhe Marcos. Assim, cabisbaixa, deixou-se caminhar devagar até a casa dele, alimentando a esperança de ser acolhida.
Acolhida e amada. Para quem nunca havia sentido carinho que não fosse oriunda da figura materna, a vida com Marcos foi como se Patrícia tivesse saído do inferno em entrasse no paraíso. Aos dezesseis anos de idade, novamente começou a acreditar que pudesse existir um futuro e até mesmo a música que continuava a ecoar em seus ouvidos na voz da mãe, tinha outro significado e diariamente pegava-se entoando a frase: “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...”
Paz que foi quebrada na nova vida quando recebeu a noticia da prisão de Marcos, envolvido com um grupo de assaltantes após pouco mais de um ano de vida em comum. Perdeu o chão e mais ainda, a esperança de ter encontrado um lugar bonito prá viver. Foi lhe dito que apenas poderia visitar Marcos na prisão com a autorização do juiz por ainda não ter completado dezoito anos. Também não possuía documento de identidade, mas lembrava-se da Certidão de Nascimento guardada em sua bolsa, fiel companheira de quando fora jogada nas ruas nas duas casas que conhecera.
Duas semanas foram necessárias para conseguir os documentos para ver-se frente a frente com o único homem a quem amara. Duas semanas que a levou de volta a vida antiga, permitindo-se ser usada em troca de dinheiro, já que não tinha nem mesmo para a passagem de ônibus urbano e comida.

Capítulo seis... "A Vampira !"

- “Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz...” – entoava diariamente e algumas vezes Mari a acompanhava na musica, sem saber o significado para a amiga.
 Dos doze aos dezesseis anos, Patrícia saía de casa apenas para compras no mercado ou em alguma das lojas do próprio bairro onde morava e seu horizonte era tão restrito quanto o que sabia da vida. Vivia de forma a permitir que seu corpo fosse usado e em contrapartida, tinha casa e comida garantida. Não mais voltou a escola e seu aprendizado estava apenas em procurar a melhor forma de tratar quem pagasse para tê-la por alguns minutos. Quando penetrada, deveria mostrar satisfação. Quando usando a boca para satisfazer o companheiro, deveria permitir ser manipulada com obediência total e quando sentisse o ápice do gozo masculino, deveria portar-se como se provasse o melhor dos quitutes. Assim portava-se Patrícia e sempre tinha um bom numero de clientes que a procuravam, fazendo com que Ivone a valorizasse e até mesmo dissesse ter sido muito bom a sua permanência naquela casa.
Situação que mudou completamente quando na vida da adolescente entrou Marcos, um rapaz que conseguiu fazer com que soubesse o porquê não devia sentir saudades ou carência de carinhos masculinos. O permitir-se ser manipulada por homens desconhecidos, até então natural para Patrícia, passou a ser quase um sacrifício dos quais fugia, pois a cada vez a imagem de Marcos parecia tomar forma à sua frente. Tanto que começou a sentir repulsas dos carinhos que recebia dos clientes.

Capítulo cinco... "O sangue ao primeiro vampiro..."

Abraçando Patrícia e a conduzindo para o interior da casa que era dotada de diversos quartos, Ivone disse que ela não precisava se preocupar com aquelas cobras, e que poderia ficar a vontade no quarto da Tânia. Era um quarto com duas camas de solteiro e lhe foi dito que durante a noite, elas estavam proibidas de sair e que não ligassem para os barulhos que pudessem ouvir, pois a casa era freqüentada por muitos amigos das moças e não seria bom que as vissem. Por isso, havia um aparelho de televisão ligado no quarto, sempre com um som bem alto.
Patrícia e Tânia se tornaram boas amigas, já que ambas tinham a mesma idade, porém a filha da dona da casa era mais livre para ir e vir. Tanto Ivone quanto as outras moças, que soube chamarem-se Mari, Diana e Cleuza, a ensinaram alguns truques de maquiagem e ainda divertiam-se com ela, fazendo com que desfilasse pela sala, parcamente vestida e devidamente produzida como uma delas. Foi devidamente ilustrada no que elas eram, e não se chocou, uma vez que não tinha padrão de comparação de comportamentos e aprendeu que o comércio do sexo era algo natural e responsável pelo sustento da casa.
Durante pouco mais de um ano, aprendeu truques, palavras e poses com as mulheres da casa e aos 12 anos já sabia a teoria da profissão. Ivone a informou que ela iria estrear com um empresário que não freqüentava a casa, mas que era cliente em potencial, já que sua motivação era sempre para jovens como ela.
Patrícia não via nada de anormal na forma de agir e novamente foi ilustrada por Ivone, de como deveria proceder diante do seu iniciador. Patrícia ficou sabendo posteriormente, que o empresário pagou cinco mil dólares por sua estréia, e ainda teve outros quatro encontros com ela, sempre em ambientes luxuosos. Depois do quinto encontro, Ivone a informou que o empresário não mais a queria. Pegou-se pensando em sua estréia após tal informação, pois procurava encontrar onde errara.
Aprendeu que por mais que se esforçasse em agir como os outros queriam, não era suficiente para ser aceita. Foi assim com o padrasto, e agora com o homem que a iniciara na profissão que Ivone denominava de cortesã. Descobriu que não poderia sentir saudades, nem mesmo carências, pois esses sentimentos eram seus inimigos.

Capítulo quatro... "Nova flor"

“Além do horizonte deve ter, algum lugar bonito prá viver em paz.” – entoou sem perceber que o que pronunciava, era apenas sua esperança para o futuro, que se apresentou na forma de uma de suas amigas de sala, uma garotinha de sua idade e que morava a uma quadra de sua casa, de nome Tânia.
- Matou aula hoje Pat? – ouviu a amiga.
- A mãe morreu! – exclamou como se não fosse ela a produzir som, pois a frase saiu sem entonação ou emoção alguma, algo que em seu íntimo fervilhava.
- Nossa! – surpreendeu-se Tânia – E o que você está fazendo aqui?
- O Edu me mandou embora! – novamente sem entonação ou emoção – Falou que eu só vou atrapalhar a vida dele!
- Ele sempre foi um porco mesmo! – ouviu a amiga falar com raiva de seu padrasto – Vem comigo! A mãe não gosta do Edu e você pode ficar lá em casa!
- Sua mãe não vai ficar brava? – falou Patrícia já com uma réstia de esperança.
- Eu acho que não! Ela não gosta do Edu e sempre falou bem de você! Sempre disse que uma garota como você é um achado! – respondeu animadamente Tânia.
Patrícia e Tânia andaram as quatro quadras até a casa conversando sobre o ocorrido e ao chegarem, a amiga de Patrícia pediu para que ela esperasse enquanto conversava com sua mãe. Os olhos de Patrícia ficaram grudados na porta da casa por onde entrou sua amiga, esperançosos de que por ela pudesse passar e ser acolhida. Não demorou em que a porta fosse aberta e Ivone aparecesse com um sorriso de boas vindas e acolhesse a pequena Patrícia, abraçando-a e conduzindo por uma sala bem decorada, com cortinas vermelhas e móveis em tom quentes.
Três outras moças atarefadas em pintar as próprias unhas ou cuidar dos cabelos também lhe deram boas vindas, mas de uma forma estranha, com frases como “Carne nova no pedaço”, ou então “Ninfeta na área, grana na mão!”, e que receberam como resposta um olhar raivoso por parte de Ivone, que dizia que a nova moradora da casa não iria ser desclassificada como elas, mas sim, seria preparada apenas para os bacanas.
- Até que os bacanas não queiram mais carne usada, né Ivone? – debochou uma loira oxigenada de nome Mari.